Mostrando postagens com marcador Lilly writes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lilly writes. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Então ele ganhou um jardim


Sentado no escuro, sem nada ver, sentindo uma leve opressão no peito. Foi quando ele se deu conta de que lá no fundo ouvia um chilrear insistente. Começou a prestar mais atenção e o que de início lhe soava um tanto irritante, mudou. O som começou a preencher agradavelmente seu ouvido, dando-lhe uma sensação de estar num jardim.

Pouco a pouco começou a visualizar o jardim. Um morno e ensolarado jardim. De canteiros floridos, bem cuidados, canteiros de vários formatos que juntos formavam um bonito desenho, se fosse possível vê-lo de cima. Havia no fundo uma grande construção muito branca. Suas portas eram adornadas por pedras esculpidas. O frio que sentia por dentro aos poucos foi se desmanchando.

"Por que eu nunca passeei nesse jardim?"
"Por que você não o enxergava".

Isto era verdade. Deu-se conta que antes, nem sequer enxergava. Havia algo que lhe tapava a visão. Nem sabia direito o que era.

"Vá, ande pelo jardim, ele é seu".

Olhou à sua volta. Caminhos bem delineados, cobertos de redondas pedrinhas, entre bege e marrom. Realmente dava vontade de andar por ali, sentindo o calor do sol no rosto.

"Eu posso mesmo andar nesse jardim?"
"Sim, você pode. Assim como os outros também podem. Você vê lá longe, atrás daqueles arbustos? Consegue enxergá-los escondidos?"
"Sim, eu os vejo. Por que eles não entram aqui?"
"Eles estão perdidos, têm medo. Não sabem que têm permissão de entrar. Eles não entram porque pensam que não são merecedores".
"Eu também não me sentia merecedor?"
"Não, mas agora você já sabe que é e pode ficar aqui".

Pensou em tomar uma direção, mudou de idéia.

"Posso ir por aqui?"
"Você pode ir por onde achar melhor. Você está no caminho certo. Todos os caminhos deste jardim terminam no mesmo lugar. Você pode explorar um de cada vez. Há muito o que ver".

Sentiu uma alegria inexplicável. Sentiu-se acolhido, reconfortado. Firme.
"Sim, estou seguro".

domingo, 14 de março de 2010

Paralisia e dor

Ontem eu senti uma dor que não era minha.
A dor de estar amarrado.
De se sentir paralisado.
De chegar num ponto da vida, olhar para trás,
e não encontrar os sonhos de juventude.
De perceber que se
ao mesmo tempo existe o desejo em melhorar,
não se sabe como,
o caminho para chegar lá.

A cegueira e a paralisia provocada pela austeridade.
O preço que se paga por culpar o mundo pela sua própria miséria.
A incapacidade de mudar verdades ilusórias
geradas pela arrogância e a prepotência.
A surdez, aquela que bloqueia o ouvido e a visão.
A insensibilidade.
A falta do abraço como consequência de não saber doar.

Eu senti essa dor que não era minha.
Eu quis mostrar o caminho.
Eu percebi que é preferível a dor da mudança.
Do que a dor da paralisia.


sábado, 16 de maio de 2009

Pequena vingança

Eu fico lendo as histórias do Felipe e morrendo de rir. Fiquei pensando sobre as piadas e as brincadeiras que eu sempre fiz e diria que o meu estilo é totalmente diferente, é um estilo muitíssimo mais sutil. É a tal coisa, questão de estilo. O que não quer dizer que eu não ache outros estilos engraçados também.

Fiquei tentando lembrar de alguma brincadeira mais radical que eu tenha feito no passado. Aí lembrei de uma historinha que não vai fazer nem cócegas perto das do Felipe, é até bonitinha.

Tinha um cara que estudava comigo no 1o. ano do segundo grau, o J. Ele era estrangeiro, acho que morava no Brasil havia alguns anos. Pat Ferret não tem a melhor das memórias mas vai lembrar dele, eu acho.

J. era um cara que sentava na primeira carteira do meio da sala e prestava atenção em tudo o que o professor dizia na aula. Fazia perguntas durante a aula e depois da aula ficava batendo papo com os professores. J. era CDF e um pouco mala.

Eu me sentava no meio de uma fileira do canto, me sentia meio excluída porque era nova no colégio, achava tudo muito chato, tinha amigos "vadios" e passava muitas aulas jogando batalha naval com a menina que sentava atrás de mim. Eu também era CDF mas era um tipo mais largado de CDF.

Um belo dia, J. deu para se aproximar de mim. Até que ele tinha bom papo. Contava umas coisas da terra dele e me dizia que gostava de escrever poesia. Ele me mostrava umas poesias dele e eu (apesar de nunca ter gostado de ler poesia), achava que algumas era realmente muito boas.

Eu não lembro exatamente como começou a história. Acho que foi porque ele transcreveu uma poesia numa folha de caderno e me deu. Eu fiquei bastante constrangida mas aceitei a poesia e guardei.

Eu tinha uma grande amiga que era exímia escritora. Ela lia muito, desenhava e gostava de mais estilos literários do que eu. Eu a conhecia do curso de inglês e ela morava a uma quadra de casa. Muitas vezes eu chegava em casa, tomava banho, almoçava e me debandava para a casa dela.

Naquele dia, obviamente, levei a poesia. Minha amiga nem bem começou a ler e disse:
- Mas isso aqui é de Fernando Pessoa, porra!

Caímos numa gargalhada sem fim. Naquela época, qualquer coisinha era motivo para a gente ter ataques de riso.

A minha amiga era bem mais maldosa do que eu. Dar de presente uma poesia de Fernando Pessoa manuscrita como se fosse de autoria própria nos pareceu algo digno de vingança, de receber uma lição.

Foi então que começamos uma troca de cartas com J. Escrevemos uma carta apaixonada para ele (essa sim, de autoria própria, com direito a versinho e tudo). Eu cheguei no dia seguinte no colégio e contei para o J. que uma amiga tinha gostado do poema dele e que como ela também gostava de escrever, quis se corresponder com ele.

As cartas continuaram. E quanto mais J. se empolgava, mais apaixonadas eram as respostas. Até que pensamos no golpe final: marcar um encontro. Minha amiga tinha um desafeto. Uma amiga que havia lhe roubado o namorado. A ladra de namorados era bastante bonita. Adicionamos a foto da menina na carta seguinte e estava pronta a isca.

J. ficou louco. Queria marcar o encontro. Pensamos no lugar, no horário, em tudo. Eu não podia ir espiar, muito arriscado. Naquela época a cidade era mais vazia, ele poderia me ver. Minha amiga com outra foram lá olhar.

Mas J. não apareceu. J. amarelou.

No dia seguinte, no colégio, perguntei a J. o que tinha acontecido. E ele cabisbaixo me respondeu: - Não sei, não tive coragem.

E foi assim que terminou a história de J. História de mentira, vivida em carta e sem final feliz. Como muitas histórias por aí. A vingança ganhou um ar de melancolia.

As cartas foram guardadas. Minha amiga ficou com elas. J. continuou meu "amigo" mas nunca mais falou no assunto. E no final do ano, J. voltou com os pais para o país de origem. As amigas da Pat, que eram amigas mais verdadeiras do que eu, ainda falaram com ele por carta (naquela época não havia e-mail) mas eu nunca mais soube de J.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Insegurança

Certa vez eu tive um amigo muito especial. Tínhamos em comum o bom-humor e a música. Após horas e horas de conversa, uma coisa levou a outra, um convite para um sábado à noite e começamos a namorar.

Em pouquíssimo tempo de namoro, um desentendimento. Um final de semana perdido, algo a ver com ele ter que ir à opera com os pais. Comunicação truncada ao telefone, traumas passados rondando. Em cima de meras suposições concluí que não havia nada a fazer senão terminar.

Minha pressa foi tanta com a minha pobre conclusão, baseada em pouquíssmos fatos reais e muita imaginação que não consegui me conter. Num ímpeto peguei o telefone de volta e terminei em poucos minutos algo que havia sido construído ao longo de alguns meses. Terminei aparentando frieza quando o sentimento era puro medo.

Feita a besteira, chorei. Chorei nos dias que se seguiram e por pelo menos mais um ano lamentei a perda, a precipitação. Algumas vezes pensei em me desculpar, em voltar atrás. Mas o medo não me permitiu. Eu me deprimi, bombei em matéria na faculdade, rejeitei outros amores.

Acho que foi depois desse ano inteiro, só depois que consegui superar a experiência, que concluí que não poderia nunca mais deixar de viver uma emoção por pura insegurança, por orgulho. Medo de ser rejeitada, de levar o "pé" primeiro. Eu me prometi experimentar sem medo o que me fosse oferecido de interessante. Enquanto valesse a pena, enquanto houvesse algo a agregar. E o mais importante de tudo: eu me prometi nunca mais basear as minhas conclusões em hipóteses. Em histórias imaginadas, monstros particulares. Prometi que a partir deste dia, tomaria decisões mais acertadas, baseadas em análises mais demoradas de fatos concretos, combinando o resultado com a constatação do que fosse importante para mim, pelo seu valor essencial, despido de orgulho fútil.

Em toda relação existe a soma e a subtração. Os valores são ponderados. Cada característica recebe seu peso no cálculo da média. Se os fatores de redução do equilíbrio não podem ser mudados, não há o que fazer. Sim, por insegurança cometemos erros terríveis. E é por isso que não me permito mais me dominar por ela.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

De novo sobre o luto

Domingo eu amanheci num enterro. Eu acordei muito cedo, após poucas horas de sono. Eu me levantei, me vesti, entrei no meu carro e peguei a estrada. Após tantos anos dirigindo, engraçado como o carro acabou se tornando o meu velho amigo. Entro nele, escolho minhas músicas preferidas e fico ali, naquele momento só meu. Eu, meu carro, música, estrada. Acaba sendo um momento prazeiroso.

Dirigi-me ao interior de São Paulo. Estrada vazia, tranquilidade, verde, curvas suaves e velocidade. Vou rezar para não ter passado por nenhum radar.

Entrei na cidadezinha adormecida. Poucos carros na rua, quase ninguém andando pelas ruas. Segui o caminho que o meu instinto mandou. No centro, característico das cidades de interior, uma dúvida. Utilizei a técnica de sempre. Perguntar a um transeunte que portava a característica de uma pessoa que mora no interior. Tranquilidade, presteza, gentileza. Após as tranquilas mas precisas instruções, cheguei ao meu destino.

Após estacionar o carro em frente ao cemitério, de novo dúvida. Dei "bom dia" para o jornaleiro, perguntei pelo velório e ele me apontou o local. Fui caminhando apressada pois já era quase hora da saída do cortejo. Rapidamente encontrei a sala correta. No meio da cantoria e do choro, consegui avistar minha amiga. Eu a vi e as lágrimas escorreram. A imagem de força com a qual estou acostumada, fragilizada pela dor. Chorei por ela e por mim. Eu me permiti chorar tudo o que não havia chorado no enterro do meu pai. Despida do orgulho, da responsabilidade, simplesmente fiquei ali, inerte, chorando ao som dos cânticos, observando as pessoas, tentando apreender os sentimentos de cada um presente.

Segui o cortejo até o local do sepultamento. Mais lágrimas. Sofridas.

Eu me comuniquei por e-mail com a minha amiga. Falamos sobre as perdas, sobre as providências a serem tomadas após a morte. Sobre mexer nos pertences das pessoas, destiná-las a doação, coisas do tipo.

Ela me contou sobre os momentos que antecederam a morte.

Fiquei pensando sobre isso. Sobre as mortes de pessoas queridas que eu precisei enfrentar até hoje. No fim acabei refletindo sobre algo que ela concordou comigo. Falei sobre o quanto é importante vivenciarmos estes últimos momentos. É algo de extrema dor mas que carrega em si algo de beleza. Eu jamais esquecerei da forma como a minha avó se despediu de mim antes de morrer. Jamais esquecerei da oportunidade de carinho que pude desfrutar com meu pai nos seus últimos momentos de vida. O quanto que o sofrimento provocou a nossa aproximação, experiências que nos melhores momentos de nossas vidas não fomos capazes de partilhar.

Fico então com a sensação, mais uma vez, de que mesmo na dor há uma beleza implícita. Recebemos a oportunidade de nos despir das vergonhas, das mágoas, dos traumas e de praticar a pura emoção, do amor incondicional. De aproveitar um momento único que jamais irá se repetir em nossas vidas. E que por isso, jamais será esquecido.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sobre elevadores

Eu estava lendo uma historinha do Felipe no Presente a limpo passada no elevador. Eu me lembrei de alguns fatos de quando me mudei para um prédio com elevador quando tinha uns 7 anos de idade.

De início, usar o elevador foi uma experiência assustadora. Eu que até então subia 3 lances de escada para chegar até o meu apartamento antigo, tive que superar a experiência de pegar um elevador. Afinal, quem é que nunca tinha ouvido histórias amedrontadoras de elevadores caindo ou de pessoas que abriam a porta e caiam direto no vão do elevador, né. Fora ficar preso no elevador, que também era uma possibilidade aterrorizante.

Eu que sempre fui baixinha, precisava me esticar para apertar os botões. Por sorte eu conseguia alcançar bem o meu andar que era o 5o. Ir para os andares das minhas amigas já era uma tarefa mais árdua porque uma morava no 9o. e a outra no 12o. E por falar em 12o. Isso também era muito assustador. A casa de máquinas ficava dois andares para cima, chegava-se até ela através de uma escadinha que saía do 13o.andar que por si só já dava aquele toque de terror. Não sei se todo mundo sabe que uma casa de máquinas (pelo menos daquele tempo) faz uns barulhos bem ao estilo de "Os outros".

Veja quantas fantasias a mente infantil é capaz de criar. Eu não sei porque mas criança consegue ser bem cruel. Por mais que a gente tivesse medo, sempre fingia que não e tentava amedrontar os outros com as histórias que havia ouvido.

Certa vez, entramos no elevador, eu e minhas amigas e no chão tinha uma caixa de camisa. Sabe aquelas caixas retangulares onde a camisa fica guardada dentro de um plástico, com o colarinho e o punho bem fixos por alfinetes e barbatanas? Pois é. Era meio da manhã, horário que a fome já começava a bater. Descíamos do 9o. andar e vimos a caixa. Era comum as pessoas colocarem as coisas no elevador para outra pessoa pegar em outro andar. Crianças que éramos e meninas, curiosas, abrimos a tal caixa. Que para nossa surpresa e felicidade estava abarrotada de salgadinhos. Coxinhas, empadas, croquetes, salgadinhos desse tipo. E quentinhos. Claro que não tivemos dúvidas e enchemos cada uma a boca com um tanto de salgadinhos. E a caixa seguiu elevador abaixo quase pela metade.

Um tempinho mais tarde, bateu o medo. E se os salgados estivessem envenenados? Imagina se criança, que tem medo de elevador e da bruxa da Branca de Neve não ia uma hora ou outra chegar nessa conclusão né?

Bom, o fato é que ninguém morreu e os salgadinhos com certeza estavam deliciosos. Com um gostinho a mais por serem proibidos.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

No dia em que ele dormiu

Saiu do hospital com um peso no peito. Pensou que talvez agora ele tivesse tranquilidade para ouvir as músicas que tanto gostava. "Quem sabe se eu conseguir um mp3 player e fizer umas compilações com os CDs dele?"

Essa idéia deu-lhe um pouco de conforto.

No dia seguinte, procurou uns aparelhinhos sem muito sucesso. "No sábado pego os CDs".

Só que sábado já era tarde. Ele se foi na sexta-feira, no final da tarde.

Embora achasse que era melhor assim, que ele já não merecia mais sofrer tanto, ficou com a sensação de não ter dado adeus. Dez minutos, apenas 10 minutos numa sexta-feira de chuva foram o que a impediram de se despedir.

Ao menos teve uma chance de homenageá-lo na pequena cerimônia com uma das suas músicas preferidas. Uma entre tantas que aprendeu a gostar através dele. O concerto de Aranjuez.

Domingo, tirou pela primeira vez o seu carro da garagem com a certeza de que ele não voltaria a ver o dono. Neste tempo todo em que se tornou a guardiã do veículo, limitou-se a lavá-lo, abastecê-lo, andar com ele somente pequenas distâncias, ciente do ciúme que o seu dono tinha dele. Pensava que um dia, talvez, o carro pudesse retornar à garagem certa.

No meio do caminho para o supermercado, um imprevisto. Precisava de um lenço de papel. Abriu o porta-luvas na procura de um e se deparou com um estojo de CDs. Várias mídias preparadas com cuidado. B.B.King, outros guitarristas americanos, coletâneas de música clássica, Teleman e "The Joshua Tree" do U2.

Este último era um daqueles gostos compartilhados pelos dois. Retirou o CD do estojo e colocou no rádio. Ao início de "Where the streets have no name", subitamente sentiu como era quando ainda bem jovem ouviam juntos as músicas na sala do apartamento do Rio. O álbum era daquela época.

Foi invadida por nostalgia e tristeza. Consciência da separação. Do nunca mais ver. Foi ouvindo as músicas do U2, lembrando disso, dirigindo e chorando.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Esse post é para o Anderson

Vocês devem estar se perguntando: quem é Anderson? Anderson, é um profissional de saúde. Plantonista da madrugada de uma UTI. Tive a oportunidade de acompanhar o seu trabalho por algumas horas. A gente se pega quase todo dia reclamando de coisas. Coisas mínimas se compararmos com o que vou falar agora.

Tem pessoas, como o Anderson, que lidam todo o dia com o sofrimento humano. Doenças de todo o tipo, gente chorando, gente desesperada, risco de contaminação, presenciam óbitos, limpam, trocam curativos, controlam o horário dos medicamentos. E eles fazem isso tudo com amor. Quem disse que amor incondicional é só de mãe? Amor incondicional existe, mesmo sem ser de mãe. Meninos, eu vi.

Eu queria citar outros nomes. Mas já esqueci. Como esqueci, invento. Que esta seja uma homenagem a todos os que eu conheci e aos que também não conheci. Teve a Sueli e a Vilma, sempre sorrindo, palavras amigas e de incentivo, a mocinha grávida que trabalha no pronto-socorro, checando o soro, olhando por cada um. O Anderson me inspirou, me fez colocar para fora esta emoção pelo capricho, a competência, e principalmente o carinho. O Anderson se apresentou, perguntou o nome de todos, preocupou-se com o conforto, com a posição, em melhorar a dor, em trocar a fralda. Orientou, fez força para entender as palavras confusas, cobriu, nutriu, tranquilizou. Falou como eu falava com os meus filhos, quando eram bebês. Amor incondicional.

Queria saber qual o mistério desta vocação. Lembremos do Anderson na próxima vez que buzinarmos para quem está distraído pensando na vida. Quando respondermos mal ao colega que nos fez uma pergunta. Quando nos impacientarmos com qualquer coisa que dure menos do que 5 minutos, porque amigos, creiam-me. As horas numa UTI não passam. A dor de uma UTI não passa. Só pessoas como o Anderson é que trazem um pouco de conforto para esse sofrimento que parece que não termina.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Caminhada

Acordava todo dia às seis da manhã. Tinha que entrar até as sete. Controlando os bocejos se vestia, separava alguns livros que havia deixado fora da mochila no dia anterior. Se fazia frio, vestia um casaco. Na vitrola, Legião Urbana: "Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo".

A caminhada não era tão longa; algumas vezes se juntava a umas colegas mais velhas. Outra vezes, seguia sozinha. Direita, esquerda, atravessar a avenida larga. Essa é perigosa, precisava tomar cuidado. Seguia mais um pouco em frente.

Quando virava na rua do colégio, algumas casas depois da esquina tinha um prédio. Já naquela hora, tão cedo, ouvia o som vindo da janela. Não saberia dizer exatamente qual era o conjunto. Nenhum do qual fosse fã. Mas o som lhe agradava. Rock progressivo. Naquele exato trecho da rua, diminuia um pouco o ritmo de seus passos, insconscientemente, prolongando por mais alguns momentos o deleite musical. Quem ouviria aquela música? Algum garoto interessante.

"Estou quase chegando lá", pensava. "Que vontade de matar o primeiro tempo. Será que o irmão Bruno deixa eu sair hoje?".

Se a aula estivesse chata, lia. Escondia o livro debaixo da carteira e lia. Alheia ao movimento em volta, ao professor, ao sinal do intervalo. Simplesmente lia, até acabar.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Caminho da escola

A avó a levava para a escola todos os dias. Não saberia dizer quanto tempo antes da entrada ela saía de casa. Certamente um tempo considerável já que o caminho era cheio de paradas obrigatórias.

Primeiro tinha o murão de pedra. Olhando para cima avistava um prédio. Entre as pedras do muro nasciam centenas de florezinhas amarelas que gostava de colher. Mais tarde, quando era mais velha disseram-lhe que o prédio era um convento, possivelmente de Carmelitas.

Cada casa no caminho com suas cores, jardins e portões. Tudo era observado em detalhes. A última casa antes de terminar a rua era bastante sombria, ar de mau-cuidada. Mas nem por isso menos interessante. Talvez fosse até a mais interessante da rua. Acontece que transbordavam para fora de sua cerca amoreiras. Pegava as amoras mais vermelhinhas e comia ali. Nem eram tão gostosas. Azedinhas, bem azedinhas. Mas era o prazer inusitado de comer a fruta no pé. E ainda por cima uma fruta tão exótica.

Na esquina havia uma padaria. E ao pé da geladeira de sorvete estava sempre deitado um gato. Listrado de branco e laranja, dócil. Gostava que lhe acariciassem o pescoço e a cabeça. Ela tinha certeza de que o felino já a conhecia e aguardava a sua chegada, sempre naquele horário. Antes do colégio.

A aula terminava, era hora de voltar para casa. A volta exigia uma sutil mudança. É que na volta o interessante era a calçada do outro lado. Uma das primeiras casas do outro lado era verde-água. Como quase todas daquela época, tinha um pequeno jardim, piso de ladrilho vermelho quebrado em mosaico. E solto no jardim, um cão muito dócil. Veja que não era um cão qualquer! Era igualzinho à Lassie. O cão se deixava tocar na cabeça por entre as grades. Certa vez disse-lhe a dona que ele se chamava Ach.

Saltitava. No verão havia uma planta com cheiro acre que lhe incomodava o nariz. Amendoeiras com suas folhas grandes. Catava os frutos no chão. Quase chegando no seu prédio, duas ou três casas parecidas, daquelas que nem pareciam de cidade. Jardim comprido na frente, vegetação densa de um lado e do outro e um estreito caminho no meio que levava até a casa lá no fundo. Casinhas com porta no meio, entre duas janelas.

Mesmo depois de adulta o caminho para a escola aparecia-lhe em sonhos. Muito real. Como se nenhum tempo tivesse passado desde a sua infância. Às vezes andava para a escola. Em outras passeava na sua bicicleta de rodinhas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Seria mais fácil?

Uma sonata em geral é composta de três partes, eventualmente quatro, chamadas de movimentos.

O primeiro movimento é mais ou menos rápido, transmite segurança, algo do tipo "ei, a vida é bela, estou começando, vai tudo bem". O segundo movimento despenca para a melancolia, no tempo "andante", o que estava bem passa a triste e choroso. Em geral, este é o meu movimento preferido na sonata. Por último, no terceiro e quarto movimentos, vem a alegria. Se for Mozart por exemplo, sentiremos um ritmo dançante, daqueles parecendo os minuetos dançados nos filmes de época. Se for Beethoven, aí a história muda um pouco de figura, tem que ser uma coisa mais marcante, triunfal, para fazer aquele fechamento da peça com chave de ouro.

Eu toquei a minha primeira sonata acho que com uns 9 anos de idade. Se não me engano, era Scarlatti. Não que eu fosse prodígio, era o normal da programação rígida do conservatório. Aos 14, 15 anos já tocava peças complexas. O meu preferido sempre foi Beethoven.

Antes de qualquer audição ou prova na sede do Conservatório (pois eu estudava numa filial), era comum, fora as aulas regulares, fazermos ensaios especiais, onde todas as professoras se reuniam em forma de banca e ouviam as peças, cada uma dando a sua avaliação e apontando os trechos a serem melhorados. Música clássica dá muito trabalho. Tem que treinar muito, prestar muita atenção e o erro nunca é aceitável.

Certa vez, eu estava tocando o segundo movimento de uma sonata de Mozart (seria K 280?) e como era um ensaio geral, empenhei-me ao máximo. Na verdade, eu me senti naquele momento só, esqueci da banca, do zum-zum-zum na recepção do conservatório, dos ônibus que freiavam no ponto próximo. Era eu, o piano, duas mãos executando três vozes, linhas melódicas que passeavam da mão direita para a esquerda. Creio que foi a minha melhor execução daquele movimento. E quando me virei para trás, minha professora, saudosa D. Dariléa Hill tinha lágrimas nos olhos.

Desde cedo era assim, desde pequenininha a professora falava: staccatto, agora com sentimento, pianíssimo, forte. E fui aprendendo a dar sentimento para pequenas bolinhas pretas no papel.

Fico pensando se é isso que me faz olhar para as coisas não como elas são mas carregadas de algum sentimento. Não que isso seja sempre bom. Pergunto-me se eu nunca tivesse aprendido a tocar uma sonata com sentimento, se seria mais fácil.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Do amor platônico

Assim ela me contou e faço deste blog instrumento:

Ela tinha uns 10 anos. Nem sabe direito como começou. Parece que foi num dia, sala de aula um tanto agitada, olhou para trás e no meio da confusão estava ele, alheio ao barulho, cabelos castanhos e pele branca, na fileira ao lado. Ela diria que foi "amor à primeira vista".

A partir daí, as aulas nunca foram mais as mesmas. Entre uma matéria e outra, lições copiadas do quadro-negro, olhares furtivos para trás cheios de curiosidade e timidez. Chegar ou sair da sala, movimentos automáticos até então, foram preenchidos com expectativa e surpresa.

Ela ia a pé para a escola. Mas nunca se encontraram no caminho. Não é de se surpreender então que ela ficasse tão entusiasmada um dia, quando saindo da padaria, ela o visse lá do outro lado da rua. Havia um carro. O que estavam fazendo, ele e seu pai, se consertando ou lavando, pouco importou. A camisa de estampa diferente, meio parecendo pano de cortina, que em qualquer outro menino pareceria engraçada, nele lhe pareceu interessante.

Passar naquela calçada, em frente àquele prédio, tornou-se também motivo de anseio, quase angústia esperançosa.

O ano terminou, outro ano começou e ele não estava mais. Nunca mais o viu, nem mesmo em frente ao prédio. Depois de alguns meses, acreditou que tinha se mudado dali para outro lugar.
Restou daquele ano apenas a foto escolar que durante as férias havia lhe dado conforto.

Seis anos se passaram. Chamou-lhe a outra amiga, um certo dia, para ir à sua casa. Chegou a ter, no fundo de sua memória, um lampejo de lembrança daquele que morava anos atrás, no prédio ao lado. E qual não foi a sua confusão de emoções ao ver que quem conversava com o irmão da sua amiga, em frente ao prédio era justamente aquele menino. Menos menino é claro, quase corpo de homem, mas o mesmo rosto tranquilo. Num tempo praticamente incontável, talvez menos de um segundo, vieram-lhe na mente todas aquelas imagens: sala de aula, foto escolar de final de ano, camisa de cortina...

Foram apresentados. O nome, ela já sabia. No olhar dele, não conseguiu vislumbrar nenhum traço de reconhecimento. Sendo assim, guardou para si o fato de já se conhecerem. Naquele momento, mesmo tantos anos depois, reacendeu-se com mais vigor adolescente o amor infantil.

A partir dali, encontraram-se muitas vezes, durante mais alguns anos. Roda de amigos divertida. Tornou-se a relação bem menos platônica mas nem tanto possível. Seguiram-se mais encontros e desencontros, até que o movimento da vida finalmente os separou.

Eu que vejo de fora observo: como é bonito perceber que seus olhos brilham, quando daquela época ela me conta. Lembrando que naquele tempo despreocupado bastava um olhar ou uma conversa para preencher o seu dia de alegria. Roubo para mim um pouco da memória dela, na esperança de que ao torná-la minha, retire algum ensinamento.