domingo, 4 de março de 2012

Reencontro

Apareceu como se nunca tivesse ido. Ela o olhou com certa desconfiança. Os que estavam em volta nem perceberam. Parecia tudo muito natural, como sempre.

Ele se aproximou, passou a mão pelos ombros dela. Um frio na nuca denunciou perigo. Mas quando ele colocou a mão no seu ombro direto, puxando-a para si, sentiu aquele morno descendo pelo corpo, um sinal de intimidade, de familiaridade. Tudo tinha voltado ao normal.

Falou-lhe de coisas corriqueiras, do que viam ao redor, do momento. E ela não quis questionar. Não quis voltar nas dores antigas, recapturar as dúvidas e o sofrimento. Ela simplesmente ficou ali, olhando para o nada e sentindo aquele braço nos ombros.

Começaram a caminhar quase sem destino. Ele dizia que queria olhar coisas. E eles caminhavam e conversavam como dois amigos, ele com a mão no ombro dela e ela enlaçando a cintura dele, e puxavam-se um para o outro com urgência, com uma força delicada, como se querendo fundir-se um ao outro, tamanha a saudade e a dor da ausência. Aquele perfil, o quadril dele se encaixando na cintura dela, aquela forma que os dois tinham junto. Era como se o certo tivesse voltado, o que tinha acabado mas que na verdade devia ser para sempre.

E seguiram assim caminhando e se amando num abraço de lado, falando de frivolidades e não pensando, porque não havia espaço para pensamento. Só havia sensação. O cheiro, o toque, o vento que levantava de leve os cabelos e aquele abraço de lado, apertado.

E pelo menos naquele momento, parecia que ia dar tudo certo novamente.

Mas será que ia mesmo?




sábado, 3 de março de 2012

Reclusão

Minha avó, que Deus a tenha, desistiu de sair de casa quando eu tinha por volta de uns 12 anos de idade. Se a memória não me falha, isso deve ter sido lá pelos anos de 1981, 1982?

 Ela acordava sempre na mesma hora, trocava de roupa, sentava na cama com o radinho de pilha na mão e começava a escutar os programas. E assim ia. Tomava café, sempre café com pão e manteiga, lavava a louça e tornava a sentar na cama. Ao longo do dia executava pequenas tarefas domésticas, sempre ligadas a arrumar alguma coisa na cozinha e lavar a louça. E sempre sentava de volta na cama com o radinho de pilha na mão. Cozinhava pouco, mas sempre os quitutes mais memoráveis. Bolinhos de fubá, doce de mamão ralado, coisas assim. E fazia crochê e tricô de dar inveja. Mas não admitia ser uma boa artesã. Ao cair da tarde ela ligava a TV, assistia umas novelas. A das seis e a das sete porque a das oito tinha temas muito fortes. E o engraçado é que não acendia a luz, era tudo no escuro. Porque na época que ela era criança, não havia luz. Era tudo iluminado por lampião à noite. Então foi assim que ela se acostumou. Ela tinha um ritual, que era praticamente o mesmo todo dia. Eu passava na porta do quarto dela e tentava vislumbrar a figura dela no escuro, com os cabelos brancos e os óculos de armação de resina transparente. E quando percebia o brilho da lente no escuro, que me olhava de volta, eu acelerava o passo para a sala, com vergonha.

Naquela época de criança,lembro que sentia estranheza. Me causava espanto alguém que não tivesse curiosidade, que não quisesse fazer cada dia uma coisa diferente, que não quisesse dar uma olhada no mundo lá fora, que diga-se de passagem, agora percebo, era muito mais interessante do que hoje em dia. Essa era a impressão de criança. Agora, como adulta e bem mais nova do que ela, fico pensando que se hoje pudesse reencontrá-la, ia descrever essas cenas vistas com olhar infantil e ia esperar dela uma explicação. E quem sabe, talvez, eu descobrisse que as aflições que lhe iam por dentro não eram assim tão diferentes das que vão por dentro de mim. Alguma saudade, algum arrependimento, alguma sensação de querer fazer mais do que parece estar ao alcance. Que o radinho de pilha que ela segurava era o equivalente ao moderno iphone que eu seguro hoje em dia. Que o twitter que eu tanto olho, tinha o mesmo sabor do José Carlos Araújo que anunciava tão animadamente um programa que no fim não preenchia a expectativa que ela colocava em cima. Que as palavras hoje lidas, antigamente ouvidas, não chegavam na velocidade ou no conteúdo esperado.

E assim minha avó viveu. Durante uns 10 anos? Que pensando agora me parece pouco mas na época era uma eternidade. Era simplesmente a minha adolescência inteira. Minha avó faleceu com uns 81 anos? Hoje nem me parece tanto assim se acovardar aos 70 anos.

E que minha avozinha me desculpe por expô-la tanto assim. Mas é que hoje, depois de adulta, lembro com mais carinho ainda do seu jeito de ser. Se quando criança eu já intuia algo profundo por trás daquela maneira de viver, mas que eu simplesmente não era capaz de compreender, hoje, não sei se felizmente ou infelizmente, posso dizer que mais carinho ainda eu sinto. Talvez por finalmente entender.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Clone

Eu voltei na loja que vendia jóias, cachimbos e jogos de mesa com a minha mãe, para buscar o anel que ela tinha comprado.

Enquanto esperava sentada no sofá, apareceu no meu colo uma pessoa que eu amei. Ele dormia, plácido, bonito e de meu susto acordou.

Olhou para mim com uns olhos vazios e foi então que eu lembrei que aquele era um clone. Espíritos maus  tinham criado um corpo igual mas sem alma. O verdadeiro estava longe, nem sabia onde.

Ele olhou para mim, tentou balbuciar algumas palavras para me convencer de que era de verdade.
Eu estava certa de que não era.

Eu lhe pedi que voltasse para casa. Alguém tomaria conta dele lá. Senti muito medo e alguma repulsa. Mas não podia deixar de me preocupar.

Pensei em dar-lhe 10 reais para o ônibus. Mas e se sentisse fome? E se se perdesse?

Contei as notas, dei-lhe 30 reais e acordei.
Acordei de um sonho ruim mas não menos aflita.
Por que de pronto lembrei que na vida real os clones também existem.





sábado, 10 de dezembro de 2011


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Tive que voltar aqui e fazer um complemento rápido ao post anterior. Eu fiquei pensando sobre o livro, sobre Clarice Lispector e o fato de só agora eu ter começado a ler. Posso estar errada mas me tocou que este é exatamente o momento de estar lendo Clarice Lispector. Se eu a tivesse lido quando adolescente, como muitos outros livros que li, acho que ia ficar a maior parte das coisas na imaginação, no entender somente intelectual. Sem o coração. Olhando para fotos antigas ontem e pensando hoje sobre o livro, percebo que eu sempre quis ser feliz. Eu queria ter amigos e fazer o que todo mundo fazia e me sentir parte de algo. E foi aí que eu errei. Porque ser feliz, não significa fazer o que todo mundo faz mas fazer o que você faz. Como diz Clarice muitas vezes, é preciso "ser". E eu continuo nessa difícil tarefa de "ser". Uns dias sendo mais ou menos, mas com a experiência aprendendo o que de fato não faz parte de mim. Sendo devagar e sem me violentar, assim espero. E entendendo finalmente que mesmo querendo ser feliz, nem sempre a gente consegue, porque por algum motivo, a tristeza independe da nossa vontade e vez por outra ela vem nos buscar. A única coisa boa é que uma vez vencida a tristeza, a gente se surpreende de ter aprendido e se sente mais poderoso. Deve ser o tal estado de graça que Lóri sentiu. Eu não estou no estado de graça uma vez que ele é passageiro. Mas bem sei como é. Graças a Deus.

Viagem ao fundo da alma

O livro mencionado no post anterior surtiu algum efeito em mim pois eu parei um pouco com os filmes e recomecei a ler. Após uma longa fase de leitura meramente recreativa, resolvi retomar os livros mais de alma.

Por sugestão da amiga Beth, do Noites em Claro, resolvi ler mais um de Clarice Lispector:

Taken with instagram

O livro é realmente muito bom. O que me frustra em Clarice Lispector é que não é uma autora para ser lida assim sem compromisso, tipo, li, entendi a estória, terminei e guarda na prateleira. Por ser uma leitura muito sensorial, dependendo do momento ou da fase de vida, a gente conecta melhor com um ou outro trecho. E no final, pelo menos eu, fico sempre com a sensação de não ter aproveitado o livro todo como eu deveria. Por exemplo, neste livro aí, especificamente, teve uma passagem que eu de verdade senti o peso dos elefantes no ar, isso só como um exemplo, porque houve outras. Só que a maçã, eu não visualizei tão bem. Então como se não me bastasse a quantidade de livros e filmes que tem por aí para ver, eu ainda fico com essa frustração, de não poder dizer que terminei com o livro. Enfim, paranoia minha mas acho que muitos que me leem devem ter sentimentos parecidos.

Hoje eu tive que resolver uns assuntos e não me segurei e acabei entrando na Livraria Cultura. Como estou assim nessa onda de leitura profunda, resolvi quebrar mais um mito interno que era a resistência ao "Retrato de Dorian Gray". Confesso que o motivo foi muito fútil. Eis que vi numa banca uma belíssima coleção de clássicos da Penguin, todos encapados com tecido e com estampas impressas, uma mais linda do que a outra. Tive que me segurar para não comprar outros que eu já li e que amo. Consegui me restringir a ficar apenas com o volume ainda não desbravado. De quebra, comprei também Mrs. Dalloway, já que Virginia Woolf estava entre as minhas antigas pendências. Só espero não sofrer demais com essas leituras. Porque lendo Clarice, eu sofri e chorei muito.

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domingo, 27 de novembro de 2011

Livros

Comprei este livro faz mais de 1 mês na Livraria Cultura. Me pareceu daqueles achados. Daquelas peças preciosas que de repente aparecem na seção de descontos. Coloquei na minha chique mesa de vidro como pede a mais correta das publicações de decoração.

Ocorre que coloquei lá e nem li. Hoje, num almoço frugal e solitário, resolvi folheá-lo ao lado de meia garrafa de vinho argentino, da uva Pinot Noir. Não sei se foi a influência do vinho ou se charme próprio, mas imediatamente me encantei com o conteúdo. Bela fotografia, texto bem cuidado, como todo bom obsessivo, já comecei uma nova lista. Aquela dos livros a ler. Como se me faltassem listas.

Foi num livro de Clarice Lispector, descrito neste livro, que me chamou a atenção a recomendação: leitura vagarosa. Eu, nos meus ímpetos e conceitos de pseudointelectual, sempre achei que a gente tivesse que entender tudo muito rápido e de primeira vez. tem que mostrar ser inteligente! Mas ao longo da vida fui quebrando muitos paradigmas autoimpostos. E do alto dos meus 40 anos, entendi finalmente que livro não precisa ser lido rápido. A gente pode simplesmente saborear. E se não entender de cara, que problema tem? Ninguém além de nós mesmos a julgar. Ler de novo, e de novo, até entender. É o que venho praticando ultimamente. Mesmo sem a permissão alheia, senti necessidade, num denso volume que venho tentando desbravar, de ler e ler, repetidas vezes até entender e absorver. E agora, mais do que nunca, lerei cem vezes, se for necessário, até julgar necessário prosseguir, já que me foi aprovado ler vagarosamente.

Fica aqui a recomendação.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Uma imagem vale mais do que 1000 palavras? E sobre o meu paradeiro...



Tenho lido muitos, muitos, muitos, livros de design, ilustração e tipografia. Redescobri o prazer de estudar através da arte. Arte que já existe em mim desde sempre, mas desde muito abafada. E foi num livro desses, mais especificamente "Illustration" de Andrew Hall, que eu li um comparativo que me encantou profundamente, sobre as similaridades e diferenças entre palavras e imagens. Não que eu intuitivamente já não as conhecesse, mas porque nunca tinha parado para pensar a respeito. E sendo ainda mais específica, me "tocou" um item em que o autor coloca a possibilidade de voltar "de novo" e "de novo" numa imagem, e se encantar "de novo", como uma das qualidades que a torna tão especial.

Tem a ver com esse meu momento o repentino encanto pelo Tumblr. Tinha a conta já há algum tempo mas nunca tinha me animado a explorar esse mundo. Veio um dia uma vontade de criar uma imagem, em seguida a vontade de postar e mais adiante a vontade de ver o que andam fazendo por lá. Quase sempre o que eu olho é o bonitinho. Apesar de reconhecer que na arte, não vale só o que é comumente aceito como bonitinho. Enfim,  não importa os motivos. Tenho andado por lá. Com bastante frequência, mesmo que apenas reblogando o que outros fizeram.

Sobre meus gostos atuais, estou totalmente fascinada pelo seriado "How I met you mother", consegui assistir de Woody Allen "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos" e ainda não consegui assistir "Meia-noite em Paris". Escuto obsessivamente "Adele" e "Regina Spektor", minhas mais recentes descobertas.  E tenho aumentado um pouco mais meu repertório de Arte, ficado um pouco mais por dentro do que é moderno. E gostei do que o Invader andou fazendo aqui em São Paulo. Inusitado, delicado e ao mesmo tempo nostálgico. Sem dizer, criativo. Enfim, é a capacidade de se expressar, tirando beleza de onde se pode.