Domingo eu amanheci num enterro. Eu acordei muito cedo, após poucas horas de sono. Eu me levantei, me vesti, entrei no meu carro e peguei a estrada. Após tantos anos dirigindo, engraçado como o carro acabou se tornando o meu velho amigo. Entro nele, escolho minhas músicas preferidas e fico ali, naquele momento só meu. Eu, meu carro, música, estrada. Acaba sendo um momento prazeiroso.
Dirigi-me ao interior de São Paulo. Estrada vazia, tranquilidade, verde, curvas suaves e velocidade. Vou rezar para não ter passado por nenhum radar.
Entrei na cidadezinha adormecida. Poucos carros na rua, quase ninguém andando pelas ruas. Segui o caminho que o meu instinto mandou. No centro, característico das cidades de interior, uma dúvida. Utilizei a técnica de sempre. Perguntar a um transeunte que portava a característica de uma pessoa que mora no interior. Tranquilidade, presteza, gentileza. Após as tranquilas mas precisas instruções, cheguei ao meu destino.
Após estacionar o carro em frente ao cemitério, de novo dúvida. Dei "bom dia" para o jornaleiro, perguntei pelo velório e ele me apontou o local. Fui caminhando apressada pois já era quase hora da saída do cortejo. Rapidamente encontrei a sala correta. No meio da cantoria e do choro, consegui avistar minha amiga. Eu a vi e as lágrimas escorreram. A imagem de força com a qual estou acostumada, fragilizada pela dor. Chorei por ela e por mim. Eu me permiti chorar tudo o que não havia chorado no enterro do meu pai. Despida do orgulho, da responsabilidade, simplesmente fiquei ali, inerte, chorando ao som dos cânticos, observando as pessoas, tentando apreender os sentimentos de cada um presente.
Segui o cortejo até o local do sepultamento. Mais lágrimas. Sofridas.
Eu me comuniquei por e-mail com a minha amiga. Falamos sobre as perdas, sobre as providências a serem tomadas após a morte. Sobre mexer nos pertences das pessoas, destiná-las a doação, coisas do tipo.
Ela me contou sobre os momentos que antecederam a morte.
Fiquei pensando sobre isso. Sobre as mortes de pessoas queridas que eu precisei enfrentar até hoje. No fim acabei refletindo sobre algo que ela concordou comigo. Falei sobre o quanto é importante vivenciarmos estes últimos momentos. É algo de extrema dor mas que carrega em si algo de beleza. Eu jamais esquecerei da forma como a minha avó se despediu de mim antes de morrer. Jamais esquecerei da oportunidade de carinho que pude desfrutar com meu pai nos seus últimos momentos de vida. O quanto que o sofrimento provocou a nossa aproximação, experiências que nos melhores momentos de nossas vidas não fomos capazes de partilhar.
Fico então com a sensação, mais uma vez, de que mesmo na dor há uma beleza implícita. Recebemos a oportunidade de nos despir das vergonhas, das mágoas, dos traumas e de praticar a pura emoção, do amor incondicional. De aproveitar um momento único que jamais irá se repetir em nossas vidas. E que por isso, jamais será esquecido.
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quarta-feira, 29 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Sem saída
Se tem uma coisa que eu odeio é quando me contam o final de um filme e portanto eu sempre evito fazer isso. Vou ter que contar o final de "Sociedade dos Poetas Mortos" para me fazer entender, entretanto. Quem quiser se preservar, pode parar por aqui.
Eu assisti esse filme no final da minha adolescência, início de idade adulta. Trata-se da estória de um professor que ingressa num colégio particular, daqueles muito tradicionais americanos e que vai conquistando aos poucos os alunos com suas idéias inovadoras. O "motto" dele é o "Carpe Diem", muito utilizado atualmente e que creio ter sido popularizado por esse filme. Ao longo da estória, há um aluno de excelente performance escolar com quem o professor acaba travando um relacionamento mais próximo. É emocionante perceber como o rapaz vai abandonando aos poucos a rigidez desnecessária e mostrando além dos atributos intelectuais, uma sensibilidade reprimida. Num determinado momento, quando o rapaz atinge a plenitude da sua descoberta, ele percebe que aquilo que havia sido traçado desde criança para ele pelos pais, não o faria completamente feliz no futuro. E ele resolve comunicar seus novos planos ao pai, que é igualmente ou mais autoritário e rígido que os princípios do colégio onde o menino estuda. É então, que na minha visão daquela época, o filme desanda. Porque ao receber a negativa do pai, o rapaz acaba se suicidando.
No fim, naquela época, acabei achando o filme ruim. Porque na minha visão, jamais um rapaz com aquele potencial poderia ter tomado uma atitude tão drástica. Eu vi a situação com os meus olhos de jovem criada numa sociedade mais liberal, cheia de sonhos e possibilidades.
Na vida, entretanto, o que parece incompreensível passa a ser dependendo daquilo que vivemos.
Houve um dia, no passado, em que uma situação corriqueira do cotidiano me provocou uma decepção tão grande que de imediato tive uma reação muito violenta e algo se rompeu dentro de mim. Era final de tarde, começava a escurecer. Eu costumo dizer que minha cabeça trabalha sozinha e a minha grande dificuldade é controlar os meus pensamentos que brotam desenfreados.
Naquele dia, após a explosão, minha cabeça se calou. Foi um emudecimento assustador. Se antes eu me assustava com o transbordamento de pensamentos, agora posso dizer que muito pior é não pensar em nada. Eu me sentei de frente a uma janela e durante quase 3 horas eu observei a chuva que caía na noite e chorei. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e eu não pensava em nada. Havia um único pensamento muito ao longe, no fundo da minha mente. Algo assustador e doloroso de confessar, algo que reverberava de leve no fundo do vazio, no buraco negro em que eu me encontrava naquele instante.
Saindo da minha letargia eu lembro que tentei ver televisão e que depois dormi. Um sono sem sonhos ou pensamentos. Vazio.
Quando acordei, já mais próxima do meu estado normal, embora triste e esgotada, eu me dei conta de que eu havia sentido o que sente uma pessoa que se suicida: sem saída. É algo duro de admitir, até porque depois que passa, a gente percebe que há saída. Mas em determinados momentos da vida, essa sensação irracional pode invadir qualquer um, percebi eu. Até mesmo nos momentos aparentemente mais improváveis, como resultado de um acúmulo de decepções e do aprisionamento pessoal. Graças a Deus o meu senso de auto-preservação foi muito maior e eu pude sobreviver para enxergar a saída.
Eu assisti esse filme no final da minha adolescência, início de idade adulta. Trata-se da estória de um professor que ingressa num colégio particular, daqueles muito tradicionais americanos e que vai conquistando aos poucos os alunos com suas idéias inovadoras. O "motto" dele é o "Carpe Diem", muito utilizado atualmente e que creio ter sido popularizado por esse filme. Ao longo da estória, há um aluno de excelente performance escolar com quem o professor acaba travando um relacionamento mais próximo. É emocionante perceber como o rapaz vai abandonando aos poucos a rigidez desnecessária e mostrando além dos atributos intelectuais, uma sensibilidade reprimida. Num determinado momento, quando o rapaz atinge a plenitude da sua descoberta, ele percebe que aquilo que havia sido traçado desde criança para ele pelos pais, não o faria completamente feliz no futuro. E ele resolve comunicar seus novos planos ao pai, que é igualmente ou mais autoritário e rígido que os princípios do colégio onde o menino estuda. É então, que na minha visão daquela época, o filme desanda. Porque ao receber a negativa do pai, o rapaz acaba se suicidando.
No fim, naquela época, acabei achando o filme ruim. Porque na minha visão, jamais um rapaz com aquele potencial poderia ter tomado uma atitude tão drástica. Eu vi a situação com os meus olhos de jovem criada numa sociedade mais liberal, cheia de sonhos e possibilidades.
Na vida, entretanto, o que parece incompreensível passa a ser dependendo daquilo que vivemos.
Houve um dia, no passado, em que uma situação corriqueira do cotidiano me provocou uma decepção tão grande que de imediato tive uma reação muito violenta e algo se rompeu dentro de mim. Era final de tarde, começava a escurecer. Eu costumo dizer que minha cabeça trabalha sozinha e a minha grande dificuldade é controlar os meus pensamentos que brotam desenfreados.
Naquele dia, após a explosão, minha cabeça se calou. Foi um emudecimento assustador. Se antes eu me assustava com o transbordamento de pensamentos, agora posso dizer que muito pior é não pensar em nada. Eu me sentei de frente a uma janela e durante quase 3 horas eu observei a chuva que caía na noite e chorei. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e eu não pensava em nada. Havia um único pensamento muito ao longe, no fundo da minha mente. Algo assustador e doloroso de confessar, algo que reverberava de leve no fundo do vazio, no buraco negro em que eu me encontrava naquele instante.
Saindo da minha letargia eu lembro que tentei ver televisão e que depois dormi. Um sono sem sonhos ou pensamentos. Vazio.
Quando acordei, já mais próxima do meu estado normal, embora triste e esgotada, eu me dei conta de que eu havia sentido o que sente uma pessoa que se suicida: sem saída. É algo duro de admitir, até porque depois que passa, a gente percebe que há saída. Mas em determinados momentos da vida, essa sensação irracional pode invadir qualquer um, percebi eu. Até mesmo nos momentos aparentemente mais improváveis, como resultado de um acúmulo de decepções e do aprisionamento pessoal. Graças a Deus o meu senso de auto-preservação foi muito maior e eu pude sobreviver para enxergar a saída.
sexta-feira, 27 de março de 2009
Homem e Deus
Estava hoje ouvindo uma música no carro, "Fix you" do Coldplay:
When you try your best but you don't succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can't sleep
Stuck in reverse.
And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone but it goes to waste
Could it be worse?
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you
And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try you'll never know
"Just what you worth"
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you
Tears stream, down on your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face and I...
Tears stream, down on your face
I promise you I will learn from my mistakes
Tears stream down your face and I...
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you.
Eu não entendo praticamente nada de filosofia, entretanto estava humildemente refletindo sobre esta música hoje. Não sei se é essa a intenção mas eu noto nessa letra um certo cunho religioso. Fora que no fundo dela, tem um órgão de igreja. Várias canções desse álbum versam sobre "estar quebrado" e "necessitar de reparo".
Posso dizer que escuto sem descanso esse álbum há uns 7 meses mais ou menos. Está claro que não é por acaso. Intimamente, apesar da minha aparência frequentemente alegre e forte, sinto-me como se algo tivesse quebrado por dentro. Crenças, convicções, sonhos. Pelo menos não quebrou a esperança. E posso afirmar que isso certamente faz com que eu me mova para a frente, mesmo que às vezes não vá para a direção certa.
Houve um tempo muito lá atrás onde eu me interessava pelo mistério da vida. Eu lia muitos livros ligados ao espiritismo, astrologia, algo de filosofia, mas sempre direcionado de alguma forma ao religioso. Era a minha necessidade de alimentar uma base religiosa inexistente em mim, uma busca empírica por Deus.
Depois que entrei para a faculdade e comecei a trabalhar, sinto que comecei a me afastar gradativamente disso tudo. O motivo eu não sei explicar. Talvez seja porque a minha área de atuação exija muito pensamento lógico e objetividade. A pressão por performance e atendimento de prazos é algo quase humanamente insuportável. Pois eis que um dia acordei e me senti praticamente atéia.
Eu sou uma pessoa muito espontânea. Não sei fingir sentimentos. Sou passional, extremada. E infelizmente percebo que ainda é muito difícil para mim entregar-me com a convicção e honestidade que eu gostaria a Deus. Sim, eu acredito em Deus. Mas tenho dificuldade em lidar com ele. Acho que é natural para pessoas que enfrentam grandes dificuldades, terem pensamentos em relação a isso. Simplesmente porque em determinadas ocasiões, os problemas são tantos, a confusão mental chega num ponto que dá vontade de jogar a toalha. Entregar a solução na mão de alguém e simplesmente ansiar para que ele possa nos dizer: "I can fix you".
Voltando à filosofia em si, acho que a minha angústia e a minha curiosidade em entender o que acontece comigo, não é exclusividade minha. Eu fico aqui elaborando de uma forma muito simplificada. Mas acho que temas como: Teocentrismo, Humanismo, Hedonismo, tudo isso de certa forma está ligado ao que eu fico pensando.
When you try your best but you don't succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can't sleep
Stuck in reverse.
And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone but it goes to waste
Could it be worse?
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you
And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try you'll never know
"Just what you worth"
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you
Tears stream, down on your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face and I...
Tears stream, down on your face
I promise you I will learn from my mistakes
Tears stream down your face and I...
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you.
Eu não entendo praticamente nada de filosofia, entretanto estava humildemente refletindo sobre esta música hoje. Não sei se é essa a intenção mas eu noto nessa letra um certo cunho religioso. Fora que no fundo dela, tem um órgão de igreja. Várias canções desse álbum versam sobre "estar quebrado" e "necessitar de reparo".
Posso dizer que escuto sem descanso esse álbum há uns 7 meses mais ou menos. Está claro que não é por acaso. Intimamente, apesar da minha aparência frequentemente alegre e forte, sinto-me como se algo tivesse quebrado por dentro. Crenças, convicções, sonhos. Pelo menos não quebrou a esperança. E posso afirmar que isso certamente faz com que eu me mova para a frente, mesmo que às vezes não vá para a direção certa.
Houve um tempo muito lá atrás onde eu me interessava pelo mistério da vida. Eu lia muitos livros ligados ao espiritismo, astrologia, algo de filosofia, mas sempre direcionado de alguma forma ao religioso. Era a minha necessidade de alimentar uma base religiosa inexistente em mim, uma busca empírica por Deus.
Depois que entrei para a faculdade e comecei a trabalhar, sinto que comecei a me afastar gradativamente disso tudo. O motivo eu não sei explicar. Talvez seja porque a minha área de atuação exija muito pensamento lógico e objetividade. A pressão por performance e atendimento de prazos é algo quase humanamente insuportável. Pois eis que um dia acordei e me senti praticamente atéia.
Eu sou uma pessoa muito espontânea. Não sei fingir sentimentos. Sou passional, extremada. E infelizmente percebo que ainda é muito difícil para mim entregar-me com a convicção e honestidade que eu gostaria a Deus. Sim, eu acredito em Deus. Mas tenho dificuldade em lidar com ele. Acho que é natural para pessoas que enfrentam grandes dificuldades, terem pensamentos em relação a isso. Simplesmente porque em determinadas ocasiões, os problemas são tantos, a confusão mental chega num ponto que dá vontade de jogar a toalha. Entregar a solução na mão de alguém e simplesmente ansiar para que ele possa nos dizer: "I can fix you".
Voltando à filosofia em si, acho que a minha angústia e a minha curiosidade em entender o que acontece comigo, não é exclusividade minha. Eu fico aqui elaborando de uma forma muito simplificada. Mas acho que temas como: Teocentrismo, Humanismo, Hedonismo, tudo isso de certa forma está ligado ao que eu fico pensando.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Living in denial
O americano usa muito essa expressão "denial". O que significaria isso em português? Viver negando algo. Não me recordo de nenhuma expressão na nossa língua que retrate com a mesma exatidão a situação.
Explicando melhor seria o seguinte: a gente passa por situações na vida que são tão dolorosas ou tão difíceis de encarar, que fazem com que a gente negue que tem problemas. A gente acaba inventando uma estorinha na nossa cabeça para tentar esquecer o problema. É um "me engana que eu gosto" inconsciente. Sim, porque quem cria essa estória não se dá conta de que inventou para fugir dos problemas.
Parece louco né? Mas é verdade. É mais fácil viver uma fantasia do que encarar o mundo real.
Aí a gente se pergunta: tem problema? Em princípio não. Porque afinal, somos donos do nosso nariz e ninguém tem nada a ver com a vida da gente, é o que a gente pensa.
E vai tudo muito bem. A gente se engana, vive a fantasia, incorpora um personagem que nem sempre tem a ver com a gente. Até que um dia a gente se dá conta de que se afastou da própria essência. Aquilo que a gente vive não tem exatamente a ver com o que a gente é de verdade.
E de novo, tem problema? Talvez não. O problema é quando a gente se dá conta de que foi tão eficiente em mentir para si mesmo que até as pessoas que nos cercam começaram a acreditar na mentira.
O americano, para o "denial", tem uma resposta: "intervention". Seria assim, quando os familiares e amigos percebem o problema e resolvem dar uma chacoalhada na pessoa para que ela volte ao seu rumo normal. Tem um pouco a ver também com drogas e alcoolismo mas não necessariamente somente nesses casos.
Aqui no Brasil a gente não usa esses termos. E nem o assunto é tratado com tanto método. Mas cabe a nós escutar de tempos em tempos o que os outros têm a dizer. E se a mensagem se repete com frequência, aí é hora de avaliar o que está acontecendo. Antes que seja tarde demais...
Explicando melhor seria o seguinte: a gente passa por situações na vida que são tão dolorosas ou tão difíceis de encarar, que fazem com que a gente negue que tem problemas. A gente acaba inventando uma estorinha na nossa cabeça para tentar esquecer o problema. É um "me engana que eu gosto" inconsciente. Sim, porque quem cria essa estória não se dá conta de que inventou para fugir dos problemas.
Parece louco né? Mas é verdade. É mais fácil viver uma fantasia do que encarar o mundo real.
Aí a gente se pergunta: tem problema? Em princípio não. Porque afinal, somos donos do nosso nariz e ninguém tem nada a ver com a vida da gente, é o que a gente pensa.
E vai tudo muito bem. A gente se engana, vive a fantasia, incorpora um personagem que nem sempre tem a ver com a gente. Até que um dia a gente se dá conta de que se afastou da própria essência. Aquilo que a gente vive não tem exatamente a ver com o que a gente é de verdade.
E de novo, tem problema? Talvez não. O problema é quando a gente se dá conta de que foi tão eficiente em mentir para si mesmo que até as pessoas que nos cercam começaram a acreditar na mentira.
O americano, para o "denial", tem uma resposta: "intervention". Seria assim, quando os familiares e amigos percebem o problema e resolvem dar uma chacoalhada na pessoa para que ela volte ao seu rumo normal. Tem um pouco a ver também com drogas e alcoolismo mas não necessariamente somente nesses casos.
Aqui no Brasil a gente não usa esses termos. E nem o assunto é tratado com tanto método. Mas cabe a nós escutar de tempos em tempos o que os outros têm a dizer. E se a mensagem se repete com frequência, aí é hora de avaliar o que está acontecendo. Antes que seja tarde demais...
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Sobre chorar os mortos
Após o falecimento do meu pai eu passei por um período de euforia. Baladas, chopps. Se eu sofria? Sofria sim. Creio que pessoas podem até ter pensado em como eu podia sair e me divertir daquele jeito se o meu pai havia acabado de morrer.
Existem algumas explicações para isso. Não que eu deva explicações. Mas é que para uma pessoa como eu, existe sempre uma tendência à consciência pesada, à auto-punição. Com o tempo eu estou percebendo que ninguém tem o direito de nos cobrar sentimentos ou atitudes quando não lhes dizem respeito e acima de tudo, quando não estão fazendo mal a ninguém. Quando agimos de forma verdadeiramente nociva, aí sim, acho que as pessoas podem nos questionar. Digo isso por dizer por que na verdade, não senti nem de meus amigos e tampouco de conhecidos, que tenham me julgado por isso.
A nossa forma de reagir diante do sofrimento é imprevisível, estou percebendo. Acho que usei e posso até estar usando ainda estas saídas como droga. Uma forma não consciente de esquecer. Música alta, alguma bebida, esquecimento. E quando volto para casa, de novo melancolia.
Outra coisa que reflito, é sobre o início deste luto. Por que a gente pode lamentar a perda de uma pessoa mesmo em vida. Ver o quanto a pessoa mudou, o quanto ela está sofrendo e enfrentar a constatação de que um dia, não se sabe se logo ou um pouco mais tarde, essa pessoa não vai estar mais por perto. A gente reza pela melhora mas percebe que não é tão viável assim. Então, posso afirmar sem dúvida que esse luto não começou no dia em que ele faleceu. Ele começou muitíssimo antes. Talvez no dia em que eu vi o primeiro exame dele.
Aí vem um outro ponto que eu não havia me dado conta. Ao longo dos últimos 15 anos, o convívio com o meu pai foi próximo mas entremeado de longas ausências: viagens minhas, viagens dele. Semanas inteiras sem contato devido à atribulação da vida. É como se mesmo sabendo que ele não está mais entre nós, ele ainda vivesse em algum lugar, longe de mim. E só me dei conta disso agora. Porque neste feriado, apesar de tudo de bonito e divertido que estou vivendo, estou frequentando o espaço dele. São dezenas de livros antigos de faculdade, fitas de vídeo com títulos anotados a mão, aparelhos eletrônicos que ele amava e que estamos usando. Tudo organizado, guardado com capricho, da forma metódica que lhe era tão peculiar.
E para minha surpresa, me peguei chorando novamente. Olhando os livros, orientando o meu filho a ter cuidado com o controle remoto que era dele, vendo a televisão que era dele e chorando. Percebendo que a pessoa se vai mas a energia fica impregnada no ambiente. A presença é sentida nas coisas quando as vemos e lembramos de como ele interagia com elas. Entrar na rotina e perceber que aquilo o que fazíamos juntos nunca mais vai acontecer.
Existem algumas explicações para isso. Não que eu deva explicações. Mas é que para uma pessoa como eu, existe sempre uma tendência à consciência pesada, à auto-punição. Com o tempo eu estou percebendo que ninguém tem o direito de nos cobrar sentimentos ou atitudes quando não lhes dizem respeito e acima de tudo, quando não estão fazendo mal a ninguém. Quando agimos de forma verdadeiramente nociva, aí sim, acho que as pessoas podem nos questionar. Digo isso por dizer por que na verdade, não senti nem de meus amigos e tampouco de conhecidos, que tenham me julgado por isso.
A nossa forma de reagir diante do sofrimento é imprevisível, estou percebendo. Acho que usei e posso até estar usando ainda estas saídas como droga. Uma forma não consciente de esquecer. Música alta, alguma bebida, esquecimento. E quando volto para casa, de novo melancolia.
Outra coisa que reflito, é sobre o início deste luto. Por que a gente pode lamentar a perda de uma pessoa mesmo em vida. Ver o quanto a pessoa mudou, o quanto ela está sofrendo e enfrentar a constatação de que um dia, não se sabe se logo ou um pouco mais tarde, essa pessoa não vai estar mais por perto. A gente reza pela melhora mas percebe que não é tão viável assim. Então, posso afirmar sem dúvida que esse luto não começou no dia em que ele faleceu. Ele começou muitíssimo antes. Talvez no dia em que eu vi o primeiro exame dele.
Aí vem um outro ponto que eu não havia me dado conta. Ao longo dos últimos 15 anos, o convívio com o meu pai foi próximo mas entremeado de longas ausências: viagens minhas, viagens dele. Semanas inteiras sem contato devido à atribulação da vida. É como se mesmo sabendo que ele não está mais entre nós, ele ainda vivesse em algum lugar, longe de mim. E só me dei conta disso agora. Porque neste feriado, apesar de tudo de bonito e divertido que estou vivendo, estou frequentando o espaço dele. São dezenas de livros antigos de faculdade, fitas de vídeo com títulos anotados a mão, aparelhos eletrônicos que ele amava e que estamos usando. Tudo organizado, guardado com capricho, da forma metódica que lhe era tão peculiar.
E para minha surpresa, me peguei chorando novamente. Olhando os livros, orientando o meu filho a ter cuidado com o controle remoto que era dele, vendo a televisão que era dele e chorando. Percebendo que a pessoa se vai mas a energia fica impregnada no ambiente. A presença é sentida nas coisas quando as vemos e lembramos de como ele interagia com elas. Entrar na rotina e perceber que aquilo o que fazíamos juntos nunca mais vai acontecer.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Novamente sobre Deus
Missas me dão um desconforto tremendo. Eu sou uma pessoa extremamente obediente e dedicada. Em geral, gosto de fazer as coisas certas, seguir todas as regras. Não que isso seja bom. É bom quando o resultado é um trabalho bem feito, por exemplo. É ruim quando eu acabo me cobrando desnecessariamente e sofrendo, ou quando deixo de fazer algo que poderia ser bom pelo simples medo de descumprir as regras.
Por que então a missa me causa desconforto? Por que eu não sei me como me portar nelas. Eu não fiz catecismo, não fiz primeira comunhão e nenhum outro rito ou sacramento. Só batismo, quando era bebê. Toda vez que eu entro numa missa eu me sinto deslocada. Não consigo me sentir pertencente ao ritual. Vejo as pessoas cantando, repetindo rezas... aquele sinalzinho de 3 cruzes é um tremendo desespero para mim, por que eu não sei fazer. Ainda bem que eu sei pelo menos fazer o sinal da cruz e rezar o Pai Nosso e a Ave Maria.
Estou abrindo o meu coração e confessando uma vergonha sem medo de rejeição. Eu queria entrar na missa e sentir o poder tranquilizante e purificador do ritual mas fico presa a procedimentos. Eu gosto de fazer tudo certo, não gosto de nada pela metade. E não sei aproveitar uma missa quando não entendo a função de cada parte e não posso comungar.
Por acreditar em Deus, acho que ele não me julga por isso. Não é?
Por que então a missa me causa desconforto? Por que eu não sei me como me portar nelas. Eu não fiz catecismo, não fiz primeira comunhão e nenhum outro rito ou sacramento. Só batismo, quando era bebê. Toda vez que eu entro numa missa eu me sinto deslocada. Não consigo me sentir pertencente ao ritual. Vejo as pessoas cantando, repetindo rezas... aquele sinalzinho de 3 cruzes é um tremendo desespero para mim, por que eu não sei fazer. Ainda bem que eu sei pelo menos fazer o sinal da cruz e rezar o Pai Nosso e a Ave Maria.
Estou abrindo o meu coração e confessando uma vergonha sem medo de rejeição. Eu queria entrar na missa e sentir o poder tranquilizante e purificador do ritual mas fico presa a procedimentos. Eu gosto de fazer tudo certo, não gosto de nada pela metade. E não sei aproveitar uma missa quando não entendo a função de cada parte e não posso comungar.
Por acreditar em Deus, acho que ele não me julga por isso. Não é?
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Luto
Quando a gente perde uma pessoa querida com quem convivemos muito mas não tínhamos mais o contato diário, o pranto é baixinho, devagar, sofrimento calmo. Ele aparece em pequenas lembranças, recordações do passado e mínimas coisas que nos acostumamos a fazer com aquela pessoa. Em geral vem quando estamos sozinhos, quando o pensamento se desliga das obrigações diárias.
Sofre muito quem tem ligação forte, sinergia, quase dependência.
Sofrem também de forma saudosa, aqueles que conheceram a pessoa no passado e que dela guardam doces recordações.
Eu não podia deixar de registrar 2 posts feitos por bloggers queridas relacionados à minha recente perda:
Impotência
Elegia
Perdas de pessoas queridas são fechamentos de ciclos. Momentos para lamentar, refletir, reorganizar e buscar novos caminhos. Que o novo ciclo se inicie utilizando aquilo de bom que conseguirmos extrair das experiências vividas, mesmo que sofridas.
Sofre muito quem tem ligação forte, sinergia, quase dependência.
Sofrem também de forma saudosa, aqueles que conheceram a pessoa no passado e que dela guardam doces recordações.
Eu não podia deixar de registrar 2 posts feitos por bloggers queridas relacionados à minha recente perda:
Impotência
Elegia
Perdas de pessoas queridas são fechamentos de ciclos. Momentos para lamentar, refletir, reorganizar e buscar novos caminhos. Que o novo ciclo se inicie utilizando aquilo de bom que conseguirmos extrair das experiências vividas, mesmo que sofridas.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
No dia em que ele dormiu
Saiu do hospital com um peso no peito. Pensou que talvez agora ele tivesse tranquilidade para ouvir as músicas que tanto gostava. "Quem sabe se eu conseguir um mp3 player e fizer umas compilações com os CDs dele?"
Essa idéia deu-lhe um pouco de conforto.
No dia seguinte, procurou uns aparelhinhos sem muito sucesso. "No sábado pego os CDs".
Só que sábado já era tarde. Ele se foi na sexta-feira, no final da tarde.
Embora achasse que era melhor assim, que ele já não merecia mais sofrer tanto, ficou com a sensação de não ter dado adeus. Dez minutos, apenas 10 minutos numa sexta-feira de chuva foram o que a impediram de se despedir.
Ao menos teve uma chance de homenageá-lo na pequena cerimônia com uma das suas músicas preferidas. Uma entre tantas que aprendeu a gostar através dele. O concerto de Aranjuez.
Domingo, tirou pela primeira vez o seu carro da garagem com a certeza de que ele não voltaria a ver o dono. Neste tempo todo em que se tornou a guardiã do veículo, limitou-se a lavá-lo, abastecê-lo, andar com ele somente pequenas distâncias, ciente do ciúme que o seu dono tinha dele. Pensava que um dia, talvez, o carro pudesse retornar à garagem certa.
No meio do caminho para o supermercado, um imprevisto. Precisava de um lenço de papel. Abriu o porta-luvas na procura de um e se deparou com um estojo de CDs. Várias mídias preparadas com cuidado. B.B.King, outros guitarristas americanos, coletâneas de música clássica, Teleman e "The Joshua Tree" do U2.
Este último era um daqueles gostos compartilhados pelos dois. Retirou o CD do estojo e colocou no rádio. Ao início de "Where the streets have no name", subitamente sentiu como era quando ainda bem jovem ouviam juntos as músicas na sala do apartamento do Rio. O álbum era daquela época.
Foi invadida por nostalgia e tristeza. Consciência da separação. Do nunca mais ver. Foi ouvindo as músicas do U2, lembrando disso, dirigindo e chorando.
Essa idéia deu-lhe um pouco de conforto.
No dia seguinte, procurou uns aparelhinhos sem muito sucesso. "No sábado pego os CDs".
Só que sábado já era tarde. Ele se foi na sexta-feira, no final da tarde.
Embora achasse que era melhor assim, que ele já não merecia mais sofrer tanto, ficou com a sensação de não ter dado adeus. Dez minutos, apenas 10 minutos numa sexta-feira de chuva foram o que a impediram de se despedir.
Ao menos teve uma chance de homenageá-lo na pequena cerimônia com uma das suas músicas preferidas. Uma entre tantas que aprendeu a gostar através dele. O concerto de Aranjuez.
Domingo, tirou pela primeira vez o seu carro da garagem com a certeza de que ele não voltaria a ver o dono. Neste tempo todo em que se tornou a guardiã do veículo, limitou-se a lavá-lo, abastecê-lo, andar com ele somente pequenas distâncias, ciente do ciúme que o seu dono tinha dele. Pensava que um dia, talvez, o carro pudesse retornar à garagem certa.
No meio do caminho para o supermercado, um imprevisto. Precisava de um lenço de papel. Abriu o porta-luvas na procura de um e se deparou com um estojo de CDs. Várias mídias preparadas com cuidado. B.B.King, outros guitarristas americanos, coletâneas de música clássica, Teleman e "The Joshua Tree" do U2.
Este último era um daqueles gostos compartilhados pelos dois. Retirou o CD do estojo e colocou no rádio. Ao início de "Where the streets have no name", subitamente sentiu como era quando ainda bem jovem ouviam juntos as músicas na sala do apartamento do Rio. O álbum era daquela época.
Foi invadida por nostalgia e tristeza. Consciência da separação. Do nunca mais ver. Foi ouvindo as músicas do U2, lembrando disso, dirigindo e chorando.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Sobre a dor
Eu fico muito chateada quando penso em citar um filme mas não consigo lembrar do nome dele e nem tenho dados suficientes que me permitam achá-lo no google. Eu queria ser mais precisa mas não vou conseguir.
Uma vez eu assisti um filme, creio que iniciava na Turquia. Era um país que estava atravessando um período difícil, guerra ou revolução. A estória (baseada em fatos reais) começava com algumas famílias combinando entre si uma fuga para os países mais ricos da Europa. Tudo o que compreende uma fuga deste tipo é mostrado. Desde o prático, como compra de passaportes, até os questionamentos entre os envolvidos e a expectativa pela nova vida.
Desde o início, pequenas dificuldades vão aparecendo. Até a maior de todas: a travessia, se não me engano da Itália para a Suíça a pé, através dos Alpes. Era algo já programado no roteiro deles. Mas os fugitivos só se dão conta da dificuldade da tarefa quando já estão por executá-la e sem opção de volta. São famílias inteiras: maridos e mulheres, filhos, mulheres grávidas.
Neste dia fazia frio. Eu não me recordo direito mas estimo que 30% do filme tenha mostrado a travessia. Neve para todo lado, noite, pessoas cansadas, pessoas carregando umas às outras, gente morrendo e frio. Muito frio. A sensação provocada pelas cenas foi potencializada pelo escuro e o frio do próprio cinema.
Eu sou de chorar muito em filmes. Qualquer ceninha mais emocionante já me arranca lágrimas. Eu chorei no Wall-e, por exemplo. Neste dia, enquanto as cenas na neve se desenrolavam, eu me envolvi de tal forma no filme que todo o desespero, o cansaço e o frio dos fugitivos, parece que tudo aquilo eu senti dentro de mim. Quando o filme terminou, eu estava esgotada, apática, vi as cenas de pessoas morrendo com tanto sofrimento que nem uma lágrima sequer rolou dos meus olhos.
Fui para casa triste e abatida e acordei do mesmo jeito no dia seguinte. Torpor, apatia, tristeza profunda.
Desde este dia, aprendi que determinadas dores são tão fortes que nos impedem até de chorar
Uma vez eu assisti um filme, creio que iniciava na Turquia. Era um país que estava atravessando um período difícil, guerra ou revolução. A estória (baseada em fatos reais) começava com algumas famílias combinando entre si uma fuga para os países mais ricos da Europa. Tudo o que compreende uma fuga deste tipo é mostrado. Desde o prático, como compra de passaportes, até os questionamentos entre os envolvidos e a expectativa pela nova vida.
Desde o início, pequenas dificuldades vão aparecendo. Até a maior de todas: a travessia, se não me engano da Itália para a Suíça a pé, através dos Alpes. Era algo já programado no roteiro deles. Mas os fugitivos só se dão conta da dificuldade da tarefa quando já estão por executá-la e sem opção de volta. São famílias inteiras: maridos e mulheres, filhos, mulheres grávidas.
Neste dia fazia frio. Eu não me recordo direito mas estimo que 30% do filme tenha mostrado a travessia. Neve para todo lado, noite, pessoas cansadas, pessoas carregando umas às outras, gente morrendo e frio. Muito frio. A sensação provocada pelas cenas foi potencializada pelo escuro e o frio do próprio cinema.
Eu sou de chorar muito em filmes. Qualquer ceninha mais emocionante já me arranca lágrimas. Eu chorei no Wall-e, por exemplo. Neste dia, enquanto as cenas na neve se desenrolavam, eu me envolvi de tal forma no filme que todo o desespero, o cansaço e o frio dos fugitivos, parece que tudo aquilo eu senti dentro de mim. Quando o filme terminou, eu estava esgotada, apática, vi as cenas de pessoas morrendo com tanto sofrimento que nem uma lágrima sequer rolou dos meus olhos.
Fui para casa triste e abatida e acordei do mesmo jeito no dia seguinte. Torpor, apatia, tristeza profunda.
Desde este dia, aprendi que determinadas dores são tão fortes que nos impedem até de chorar
sábado, 24 de janeiro de 2009
A room with a view

Quando a gente viaja, principalmente para o exterior, tudo é bonito. A gente presta atenção nos cartazes, nos formatos das coisas, na arquitetura dos prédios, na maneira como as pessoas estão vestidas. Na nossa própria cidade, por mais que ela tenha a oferecer para ser visto, os detalhes nos passam desapercebidos, apagados pela rotina.
Saindo da rotina normal, se nos dermos a oportunidade, somos capazes de capturar novamente essas sutilezas, beneficiando-nos destes pequenos momentos de beleza.
Hoje eu estava num humor um tanto melancólico, facilmente explicável pelo momento de vida em que me encontro. Entrei num determinado restaurante, local teoricamente não agradável para almoçar. Atrairam-me umas mesinhas coladas na janela. Escolhi a que estava mais no fundo e sentei-me de uma forma que eu visualizava todo o pequeno salão de refeições.
Uma vez acomodada, olhei para fora da janela. Fui engolfada por uma vista espetacular. Ali estava, no alto de sua imponência, o MASP que pelo que constatei naquele momento é muito mais bonito visto pelos fundos do que pela frente na Avenida Paulista. Seus contornos de vermelho vibrante constrastavam com o céu inevitavelmente cinzento e nublado, corpo de vidro parecendo um tanto grande para as colunas de sustentação. Logo abaixo, pracinhas de acesso à Avenida Nove de Julho e os túneis da mesma avenida, remetendo com seus desenhos a épocas longínquas.
Que tenha sido por apenas alguns segundos. Momentaneamente a opressão do peito diminuiu e entreguei-me à tarefa de imaginar um novo post. A cada dia difícil, uma nova mostra de que passamos por momentos recheados de diferentes sensações e sentimentos. Não existe um estado permanente de tristeza ou alegria. O quanto mais eficientes formos em administrar estes momentos, melhor nos sentiremos.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
História Real - The Straight Story
Embora dê essa impressão, este não é um post cinematográfico.
Um dos melhores filmes que eu assisti nos últimos tempos foi "História Real" de David Lynch. Talvez o que tenha tornado o filme melhor ainda foi que não criei expectativas em cima dele. Estava um dia de bobeira em casa, zapeando a televisão e parei num Telecine da vida no exato momento em que o filme começava.
Não sei se eu acabo com a graça do filme contando sobre o que ele é. Começa com um velhinho, vários problemas de saúde, quase cegueira provocada por uma diabete grave e mal-tratada. Ele recebe a notícia de que o seu irmão com quem não fala há mais de 30 ou 40 anos está morrendo. Então ele decide visitá-lo. Sem dinheiro e quase cego, ele se utiliza do único recurso que lhe resta. Seu cortador de grama, de um modelo parecido com um mini-trator.
O velhinho, Alvin Straight, atravessa 3 estados americanos, de Iowa a Wisconsin, dirigindo seu cortador de grama, no acostamento das estradas, para rever seu irmão no leito de morte. E o incrível disso tudo é que o filme foi mesmo baseado numa história real.
Tão real é este tipo de história que acontece quando a gente menos espera. Não precisa ser um cortador de grama, pode ser uma ponte-aérea. Não precisa levar mais de 1 mês. Bastam 40 minutos. O importante é que acontece, provando que com o tempo, quem estiver disposto, pode resolver quase tudo na vida.
Um dos melhores filmes que eu assisti nos últimos tempos foi "História Real" de David Lynch. Talvez o que tenha tornado o filme melhor ainda foi que não criei expectativas em cima dele. Estava um dia de bobeira em casa, zapeando a televisão e parei num Telecine da vida no exato momento em que o filme começava.
Não sei se eu acabo com a graça do filme contando sobre o que ele é. Começa com um velhinho, vários problemas de saúde, quase cegueira provocada por uma diabete grave e mal-tratada. Ele recebe a notícia de que o seu irmão com quem não fala há mais de 30 ou 40 anos está morrendo. Então ele decide visitá-lo. Sem dinheiro e quase cego, ele se utiliza do único recurso que lhe resta. Seu cortador de grama, de um modelo parecido com um mini-trator.
O velhinho, Alvin Straight, atravessa 3 estados americanos, de Iowa a Wisconsin, dirigindo seu cortador de grama, no acostamento das estradas, para rever seu irmão no leito de morte. E o incrível disso tudo é que o filme foi mesmo baseado numa história real.
Tão real é este tipo de história que acontece quando a gente menos espera. Não precisa ser um cortador de grama, pode ser uma ponte-aérea. Não precisa levar mais de 1 mês. Bastam 40 minutos. O importante é que acontece, provando que com o tempo, quem estiver disposto, pode resolver quase tudo na vida.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Sliding Doors - De caso com o acaso
Fiquei pensando sobre algo que de uma certa forma tem a ver com o que a minha amiga vive escrevendo. Ela diz que tem algumas "coincidências" que acontecem com a gente. E realmente acontecem. Coisinhas pequenas que não dão para explicar, que provavelmente não significam muita coisa, mas que ficam curiosas.
Eu lembrei hoje de um filme antigo da Gwyneth Paltrow (ô nomezinho difícil de escrever). Chama-se "Sliding Doors". O tema trata de duas estórias paralelas envolvendo uma situação totalmente corriqueira que eu não recordo qual é, algo como entrar no metrô ou não entrar. Mais ou menos assim: numa situação ela se atrasa e não entra e na outra ela entra. E dependendo deste fato teoricamente desprezível, a vida dela transcorre de uma forma completamente diferente. Não deixa de ter algo em comum com "Efeito Borboleta", só que é um filme infinitamente mais light.
Às vezes temos atitudes simples: falamos algo, decidimos ir ou não ir a um determinado lugar, optamos por algo e ficamos remoendo coisas acerca desta atitude, achando que provocamos com isso tempestades, fazendo suposições inúteis. Lembrei então deste filme, do quanto um ato completamente fora do controle ou mesmo inconsciente pode mudar toda uma trajetória. É aí, que me questiono de que vale nos torturarmos por tão pouco.
Eu lembrei hoje de um filme antigo da Gwyneth Paltrow (ô nomezinho difícil de escrever). Chama-se "Sliding Doors". O tema trata de duas estórias paralelas envolvendo uma situação totalmente corriqueira que eu não recordo qual é, algo como entrar no metrô ou não entrar. Mais ou menos assim: numa situação ela se atrasa e não entra e na outra ela entra. E dependendo deste fato teoricamente desprezível, a vida dela transcorre de uma forma completamente diferente. Não deixa de ter algo em comum com "Efeito Borboleta", só que é um filme infinitamente mais light.
Às vezes temos atitudes simples: falamos algo, decidimos ir ou não ir a um determinado lugar, optamos por algo e ficamos remoendo coisas acerca desta atitude, achando que provocamos com isso tempestades, fazendo suposições inúteis. Lembrei então deste filme, do quanto um ato completamente fora do controle ou mesmo inconsciente pode mudar toda uma trajetória. É aí, que me questiono de que vale nos torturarmos por tão pouco.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
O curioso caso de Benjamin Button
Eu ainda não vi mas li a sinopse e isto me fez pensar. Num momento mais oportuno emocionalmente, assistirei.
Eu li uma vez, não me recordo onde. Não sei se era dado científico ou tema filosófico. Isso pouco importa porque para mim faz sentido. Li que os bebês, os filhotes, nascem engraçadinhos para criar uma espécie de feitiço na mãe. Para que ela enternecida por aquele ser encantador, sinta-se compelida a cuidá-lo, pois não é uma tarefa tão fácil.
Reflito então sobre o filme que eu ainda não vi. Se o filhote é engraçadinho para encantar e se ao envelhecermos por vezes voltamos a agir como os bebês, então melhor é viver de forma digna, honrada, inspiradora. Para que no momento em que a pele não for mais viçosa e nem o cabelo tão brilhoso, quando necessitarmos de cuidado, que as pessoas que nos olham vejam através da pele enrugada. Que nos enxerguem na alma, lembrando dos bons momentos que passaram, das grandes pessoas que somos mesmo que momentaneamente presos a um corpo frágil.
Eu li uma vez, não me recordo onde. Não sei se era dado científico ou tema filosófico. Isso pouco importa porque para mim faz sentido. Li que os bebês, os filhotes, nascem engraçadinhos para criar uma espécie de feitiço na mãe. Para que ela enternecida por aquele ser encantador, sinta-se compelida a cuidá-lo, pois não é uma tarefa tão fácil.
Reflito então sobre o filme que eu ainda não vi. Se o filhote é engraçadinho para encantar e se ao envelhecermos por vezes voltamos a agir como os bebês, então melhor é viver de forma digna, honrada, inspiradora. Para que no momento em que a pele não for mais viçosa e nem o cabelo tão brilhoso, quando necessitarmos de cuidado, que as pessoas que nos olham vejam através da pele enrugada. Que nos enxerguem na alma, lembrando dos bons momentos que passaram, das grandes pessoas que somos mesmo que momentaneamente presos a um corpo frágil.
Esse post é para o Anderson
Vocês devem estar se perguntando: quem é Anderson? Anderson, é um profissional de saúde. Plantonista da madrugada de uma UTI. Tive a oportunidade de acompanhar o seu trabalho por algumas horas. A gente se pega quase todo dia reclamando de coisas. Coisas mínimas se compararmos com o que vou falar agora.
Tem pessoas, como o Anderson, que lidam todo o dia com o sofrimento humano. Doenças de todo o tipo, gente chorando, gente desesperada, risco de contaminação, presenciam óbitos, limpam, trocam curativos, controlam o horário dos medicamentos. E eles fazem isso tudo com amor. Quem disse que amor incondicional é só de mãe? Amor incondicional existe, mesmo sem ser de mãe. Meninos, eu vi.
Eu queria citar outros nomes. Mas já esqueci. Como esqueci, invento. Que esta seja uma homenagem a todos os que eu conheci e aos que também não conheci. Teve a Sueli e a Vilma, sempre sorrindo, palavras amigas e de incentivo, a mocinha grávida que trabalha no pronto-socorro, checando o soro, olhando por cada um. O Anderson me inspirou, me fez colocar para fora esta emoção pelo capricho, a competência, e principalmente o carinho. O Anderson se apresentou, perguntou o nome de todos, preocupou-se com o conforto, com a posição, em melhorar a dor, em trocar a fralda. Orientou, fez força para entender as palavras confusas, cobriu, nutriu, tranquilizou. Falou como eu falava com os meus filhos, quando eram bebês. Amor incondicional.
Queria saber qual o mistério desta vocação. Lembremos do Anderson na próxima vez que buzinarmos para quem está distraído pensando na vida. Quando respondermos mal ao colega que nos fez uma pergunta. Quando nos impacientarmos com qualquer coisa que dure menos do que 5 minutos, porque amigos, creiam-me. As horas numa UTI não passam. A dor de uma UTI não passa. Só pessoas como o Anderson é que trazem um pouco de conforto para esse sofrimento que parece que não termina.
Tem pessoas, como o Anderson, que lidam todo o dia com o sofrimento humano. Doenças de todo o tipo, gente chorando, gente desesperada, risco de contaminação, presenciam óbitos, limpam, trocam curativos, controlam o horário dos medicamentos. E eles fazem isso tudo com amor. Quem disse que amor incondicional é só de mãe? Amor incondicional existe, mesmo sem ser de mãe. Meninos, eu vi.
Eu queria citar outros nomes. Mas já esqueci. Como esqueci, invento. Que esta seja uma homenagem a todos os que eu conheci e aos que também não conheci. Teve a Sueli e a Vilma, sempre sorrindo, palavras amigas e de incentivo, a mocinha grávida que trabalha no pronto-socorro, checando o soro, olhando por cada um. O Anderson me inspirou, me fez colocar para fora esta emoção pelo capricho, a competência, e principalmente o carinho. O Anderson se apresentou, perguntou o nome de todos, preocupou-se com o conforto, com a posição, em melhorar a dor, em trocar a fralda. Orientou, fez força para entender as palavras confusas, cobriu, nutriu, tranquilizou. Falou como eu falava com os meus filhos, quando eram bebês. Amor incondicional.
Queria saber qual o mistério desta vocação. Lembremos do Anderson na próxima vez que buzinarmos para quem está distraído pensando na vida. Quando respondermos mal ao colega que nos fez uma pergunta. Quando nos impacientarmos com qualquer coisa que dure menos do que 5 minutos, porque amigos, creiam-me. As horas numa UTI não passam. A dor de uma UTI não passa. Só pessoas como o Anderson é que trazem um pouco de conforto para esse sofrimento que parece que não termina.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Seria mais fácil?
Uma sonata em geral é composta de três partes, eventualmente quatro, chamadas de movimentos.
O primeiro movimento é mais ou menos rápido, transmite segurança, algo do tipo "ei, a vida é bela, estou começando, vai tudo bem". O segundo movimento despenca para a melancolia, no tempo "andante", o que estava bem passa a triste e choroso. Em geral, este é o meu movimento preferido na sonata. Por último, no terceiro e quarto movimentos, vem a alegria. Se for Mozart por exemplo, sentiremos um ritmo dançante, daqueles parecendo os minuetos dançados nos filmes de época. Se for Beethoven, aí a história muda um pouco de figura, tem que ser uma coisa mais marcante, triunfal, para fazer aquele fechamento da peça com chave de ouro.
Eu toquei a minha primeira sonata acho que com uns 9 anos de idade. Se não me engano, era Scarlatti. Não que eu fosse prodígio, era o normal da programação rígida do conservatório. Aos 14, 15 anos já tocava peças complexas. O meu preferido sempre foi Beethoven.
Antes de qualquer audição ou prova na sede do Conservatório (pois eu estudava numa filial), era comum, fora as aulas regulares, fazermos ensaios especiais, onde todas as professoras se reuniam em forma de banca e ouviam as peças, cada uma dando a sua avaliação e apontando os trechos a serem melhorados. Música clássica dá muito trabalho. Tem que treinar muito, prestar muita atenção e o erro nunca é aceitável.
Certa vez, eu estava tocando o segundo movimento de uma sonata de Mozart (seria K 280?) e como era um ensaio geral, empenhei-me ao máximo. Na verdade, eu me senti naquele momento só, esqueci da banca, do zum-zum-zum na recepção do conservatório, dos ônibus que freiavam no ponto próximo. Era eu, o piano, duas mãos executando três vozes, linhas melódicas que passeavam da mão direita para a esquerda. Creio que foi a minha melhor execução daquele movimento. E quando me virei para trás, minha professora, saudosa D. Dariléa Hill tinha lágrimas nos olhos.
Desde cedo era assim, desde pequenininha a professora falava: staccatto, agora com sentimento, pianíssimo, forte. E fui aprendendo a dar sentimento para pequenas bolinhas pretas no papel.
Fico pensando se é isso que me faz olhar para as coisas não como elas são mas carregadas de algum sentimento. Não que isso seja sempre bom. Pergunto-me se eu nunca tivesse aprendido a tocar uma sonata com sentimento, se seria mais fácil.
O primeiro movimento é mais ou menos rápido, transmite segurança, algo do tipo "ei, a vida é bela, estou começando, vai tudo bem". O segundo movimento despenca para a melancolia, no tempo "andante", o que estava bem passa a triste e choroso. Em geral, este é o meu movimento preferido na sonata. Por último, no terceiro e quarto movimentos, vem a alegria. Se for Mozart por exemplo, sentiremos um ritmo dançante, daqueles parecendo os minuetos dançados nos filmes de época. Se for Beethoven, aí a história muda um pouco de figura, tem que ser uma coisa mais marcante, triunfal, para fazer aquele fechamento da peça com chave de ouro.
Eu toquei a minha primeira sonata acho que com uns 9 anos de idade. Se não me engano, era Scarlatti. Não que eu fosse prodígio, era o normal da programação rígida do conservatório. Aos 14, 15 anos já tocava peças complexas. O meu preferido sempre foi Beethoven.
Antes de qualquer audição ou prova na sede do Conservatório (pois eu estudava numa filial), era comum, fora as aulas regulares, fazermos ensaios especiais, onde todas as professoras se reuniam em forma de banca e ouviam as peças, cada uma dando a sua avaliação e apontando os trechos a serem melhorados. Música clássica dá muito trabalho. Tem que treinar muito, prestar muita atenção e o erro nunca é aceitável.
Certa vez, eu estava tocando o segundo movimento de uma sonata de Mozart (seria K 280?) e como era um ensaio geral, empenhei-me ao máximo. Na verdade, eu me senti naquele momento só, esqueci da banca, do zum-zum-zum na recepção do conservatório, dos ônibus que freiavam no ponto próximo. Era eu, o piano, duas mãos executando três vozes, linhas melódicas que passeavam da mão direita para a esquerda. Creio que foi a minha melhor execução daquele movimento. E quando me virei para trás, minha professora, saudosa D. Dariléa Hill tinha lágrimas nos olhos.
Desde cedo era assim, desde pequenininha a professora falava: staccatto, agora com sentimento, pianíssimo, forte. E fui aprendendo a dar sentimento para pequenas bolinhas pretas no papel.
Fico pensando se é isso que me faz olhar para as coisas não como elas são mas carregadas de algum sentimento. Não que isso seja sempre bom. Pergunto-me se eu nunca tivesse aprendido a tocar uma sonata com sentimento, se seria mais fácil.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Mundos Paralelos
Nem sei bem o que quero dizer com isso.
Também não sei se eu queria dizer isso.
Mas pensei: "o perigo é se ficar mais confortável aqui dentro do que lá fora".
Também não sei se eu queria dizer isso.
Mas pensei: "o perigo é se ficar mais confortável aqui dentro do que lá fora".
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