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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pequenos Espaços


Meu quarto sempre foi, até uma certa idade adulta, o meu lugar sagrado. O meu cantinho de leituras, reflexão, de ouvir música e olhar através da janela. O lugar onde nada me parecia errado (a não ser que estivesse muito bagunçado, pois não suporto bagunça) e onde eu gostava de me refugiar.

Houve tempo na minha vida em que me senti roubada desse santuário. Tudo começou a me parecer muito complicado, como diria o André, "fiquei obesa por dentro" (adorei essa frase, acho que nunca esquecerei, pois entendi bem a sensação).

Comecei a analisar e percebi que o motivo de minha aflição foi o excesso de coisas que eu havia colocado em minha vida. E foi então, lá atrás, quando me senti tão aflita, que percebi que eu era feliz dentro do meu quarto. Do meu quarto antigo, aquele que abrigava meus livros e meus discos (que então ainda eram de vinil). Minhas roupas, minhas lembranças. Não que eu achasse tudo de adquirido desnecessário, mas foi quando percebi o quanto o excesso de coisas me tornava infeliz. Já escrevi outras vezes sobre isso. Sobre contas a pagar, suporte tecnológico, ou mesmo quantidade de lâmpadas a trocar. Coisas que acontecem quando a gente tem mais do que precisa. A gente puxa muita responsabilidade para si. Eu sou muito grata por tudo que conquistei. Mas sou partidária dos ajustes. De viver, analisar e mudar o que for preciso.

Hoje eu vivo de forma a simplificar a minha vida. Jogar ou doar objetos sem uso, questionar compras e qualquer utilidade moderna. Reconheço que ainda estou longe de ser "magra por dentro" e por fora, pois ainda me cerco de muita coisa desnecessária, mas persigo esse intento de um dia, ter exatamente as coisas que eu preciso. Na medida certa. Esperando assim viver melhor e contribuir para um mundo melhor (falando assim parece que eu sou super certinha, mas não sou. Eu tento).

Bom, falei de tudo isso para introduzir um post que eu achei muito interessante. Pessoas que chegaram à conclusão de que não precisavam de mansões para serem felizes, que ficaram felizes em ter seu pequeno espaço organizado a gosto próprio, privilegiando os hábitos que mais apreciam: Tiny Apartments. E os argumentos que a Sam coloca são interessantíssimos. Vale a pena conferir e refletir.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Estudar


Eu não gosto de me abrir muito no blog, não porque seja uma pessoa introspectiva, mas por que sou, apesar de extrovertida, desconfiada. A gente escuta tanta história bizarra envolvendo internet hoje em dia, que fica medindo (pelo menos eu), o que pode ou não ser dito.

No passado eu já escrevi sobre sonhos recorrentes. Sobre elevadores de 4 portas, discos voadores. Enfim, nem lembro direito o que escrevi. Terei que reler. Mas eu senti grande necessidade de dividir algo que aconteceu comigo. Tem muita coisa que a gente lê e que a gente sabe na teoria. Mas eu acho que existe um valor agregado muito maior em falar sobre algo que a gente leu e acabou constatando. Eu sempre falo sobre o "estalo", o "cair da ficha". Quando a gente vive algo e se dá conta de que era sobre isso que fulano estava falando num livro, ou no filme, ou que qualquer pessoa contou para a gente.

Durante grande parte da minha idade adulta, eu tive um sonho. De que eu voltava para o colégio. O sentimento do sonho não tinha nada a ver com saudades de adolescência, dos tempos dourados. O tom, era sempre o de algo inacabado. Eu voltava para o colégio, de uniforme e tudo e encontrava tudo mudado. E me perguntava o que eu fazia ali se já tinha me formado. Às vezes era a faculdade. Eu achava que estava faltando algo para obter o diploma. Eu acordava e não sabia definir exatamente o que faltava e porque eu estava sonhando com aquilo.

Um dia eu li "Quando Nietzsche Chorou". Li por que era moda, ou por que fiquei curiosa, nem lembro direito o motivo. Só sei que li e não gostei muito. Empurrei a leitura. Não me parecia coerente (naquela ocasião), ver um grande nome da filosofia reduzido a trapos, a criatura tão severamente atormentada. Muito embora eu tivesse conhecimento de que grande parte dos grandes nomes, dos ícones que tanto admiramos, foram na verdade almas extremamente sofredoras. Tem horas, que não sei porque, a minha razão não bate com a compreensão. Eu sei do fato mas simplifico. Naquele momento, Nietzsche = sábio < > depressivo. Eu sei, não faz o menor sentido a minha equação. Mas foi o que pensei.

Também durante grande parte de minha idade adulta, eu sofri de alguns males. Ansiedade, pequenas crises de pânico, fobias inexplicáveis. Coisas que eu sofria e queria muito vencer. Coisas que praticamente foram vencidas durante algum tempo, com a vinda do primeiro filho. Por que a maternidade me deu uma força que eu nem sei de onde veio. Maternidade não sonhada, não planejada, mas que configurou um novo sentido à minha vida. E continuei eu deslumbrada por ela, até o segundo filho. Mas quando parte dos problemas retornaram. Por que embora fascinada, eu não estava preparada para toda a responsabilidade que a vida moderna infligiria nas variadas facetas que eu precisava dominar. Metódica, caprichosa ao extremo, perseguidora de ideais nem sempre factíveis, ou cabíveis, eu me enrolei. Eu me perdi nos objetivos, errei as prioridades e comecei a sofrer novamente. E comecei a sonhar com caminhadas livres ao sol das 10 da manhã e dias sem problemas e prazeres simples de infância. Coisas nem tão absurdas mas que para mim pareciam inatingíveis.

E fui seguindo assim, até que minha vida virou de cabeça para baixo. Eu sofri, eu me perdi na minha essência. Mas hoje eu entendo que tudo aquilo foi necessário para que eu voltasse ao meu trilho. Para que eu recuperasse as coisas em que eu acreditava, para que eu voltasse a ser quem eu realmente era e tivesse coragem de perseguir os sonhos que finalmente eu tinha preparo (de vida) para perseguir. Eu sofri, joguei tudo para o alto, separei o que não servia mais e recomecei. Recomeçar, não é nada fácil. Recomeçar, nem sempre é seguir em frente. Muitas vezes é questionar as decisões, duvidar de nossa capacidade.


Eu tive muitas coisas boas em que me apoiar nesse tempo todo. Poderia falar sobre várias delas. Mas eu gostaria de falar sobre algo que estou vivendo nesse momento. Algo que eu iniciei há cerca de um ano e que gradativamente me mostrou a luz no fim do túnel. Essa coisa, foi estudar. Eu comecei devagar com alguns cursos livres. Comecei a me familiarizar com os temas que envolveriam minha nova carreira. Sim, eu resolvi mudar de carreira! Radical! Fui fazendo um cursinho aqui e acolá. No final do ano passado, resolvi investir num curso técnico. Porque eu percebi que precisava de algo mais formal do que os cursos livres vinham me proporcionando. E eu tinha um tempo limitado para me recolocar na nova carreira.

E foi por isso que sumi. Porque o curso técnico começou e um novo mundo, de verdade, sem querer me utilizar de chavões, se descortinou diante dos meus olhos. Eu vi coisas que me remeteram à infância e aos gostos cultivados durante tantos anos, paralelamente ao meu trabalho formal. Eu descobri que para tudo aquilo que me fascinava, havia se não uma, milhares de possibilidades e aplicações diferentes. Eu me reencontrei, reinventei e acima de tudo: recuperei minha dignidade. Eu vi que uma hora, tudo vai dar certo. Que eu vou conseguir mostrar o meu valor e fazer o que gosto. Eu redescobri isso tudo pelo estudo. Leio ávidamente a bibliografia que meus professores passam e discuto de igual para igual os temas com colegas que são na grande maioria, 23 ou 24 anos mais novos do que eu. De igual para igual no que tange ao novo, ao moderno, porque bagagem não me falta, sobra! E eu não me sinto discriminada, eu não me sinto velha. Eu me sinto viva e atual. Eu renasci.

E onde "Quando Nietzsche Chorou" entra nessa história toda? Por que foi assim que um dia eu entendi. Simplesmente lembrei das situações do livro e compreendi por que a gente pode vomitar sem doença e o coração pode disparar e a gente achar que vai morrer, sem motivo aparente. Por que a gente pode olhar para uma comida, e a despeito de sua aparência fresca, achar que algo pode estar estragado ali e que vai nos fazer mal. A gente sente tudo isso, por que a gente está se violentando. Por mais corretos que possam parecer nossos planos, nossa dedicação, a gente pode estar seguindo um caminho totalmente errado. Descobri que tão perigoso quanto não saber o que fazer da vida, pode ser a certeza do que a gente deve fazer da vida. Por que dever, nem sempre é querer. E existe um limite para o que a gente pode suportar.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sobre as mudanças interiores

Pincelei de leve no post anterior uma insatisfação comigo mesma. Existe um cansaço que nos atinge de tempos em tempos quando buscamos a nossa melhora interior. Melhora impalpável e impossível de medir. É fatigante essa tarefa de se observar, identificar o que precisa ser mudado e efetivamente implementar. Engraçado que nem estava naquele momento do post nesse estado de letargia. Mas lembrei dele. Porque sou possuidora de uma mente inquieta e inconstante, que num minuto está observando embevecida a forma como uma luz toca um objeto e no outro está sendo perseguida por monstros particulares e totalmente imaginários.

Se por um lado posso me torturar com o desejo de reforma e evolução, por outro, apesar do sofrimento, não consigo acreditar que seja se não correto, no mínimo saudável não pensar e nem almejar mudanças. Eu não prego o sofrimento. Mas olho com desconfiança tudo o que é fácil. Buscar o equilíbrio interior: sempre. Mas isso não quer dizer que não haverá esforço no aprendizado. Não quer dizer que eu não possa errar e tentar de novo de um outro jeito. E pelo fato de estar sempre atenta, acredito que os erros serão menores. Não estou dentro de um trem desgovernado que provoca acidentes irreparáveis. O que falo na primeira pessoa não é privilégio meu. É direito adquirido por todos, desde o nascimento.

Eu estava lendo o post da Pri no Devaneios e Metamorfoses e me deu vontade de expressar o quanto precisamos ser mais condescendentes conosco de tempos em tempos. Não dá para entender o passo da mudança. Mas eu tenho a certeza de que ela ocorre no tempo certo.

Eu tenho um lado espiritualizado independente de crença. Bom, vamos dizer que eu tenho uma tendência religiosa. Mas o meu lado excessivamente lógico me impede de abraçá-lo com entrega e sinceridade. Eu sinto que o clamor religioso nos atinge com o tempo, quando percebemos que na vida muitas coisas não conseguimos explicar mas que precisa haver um sentido em tudo o que vivemos. E que se a gente não sabe exatamente qual o sentido, fica mais fácil nomeá-lo como Deus até que a gente descubra o que é de verdade. E percebi que existe beleza na luz. E que todos somos atraídos por ela.

Devido a esse lado espiritualizado, desenvolvi um hábito de ler todo dia, antes de dormir, textos de meditação. Durante algum tempo foi um livro psicografado por Chico Xavier, do espírito Emmanuel, chamado "Meditações Diárias". Depois que eu quase decorei o livro e aproveitando a coincidência do comentário de uma amiga, passei a ler "Abrindo Portas Interiores" de Eileen Caddy. O ritual consiste em abrir aleatoriamente uma página, ler a mensagem e refletir sobre ela. E existe um misto de surpresa e certeza em reconhecer que 99% das vezes a mensagem é exatamente a que a gente precisava ouvir. É um hábito quase adolescente, para pessoas céticas como eu, mas que me nutre interiormente, quiçá até pela aceitação da inocência implícita no ato.

Para encerrar o post que já ficou longo demais, transcreverei a mensagem que li um certo dia e que me veio à cabeça quando li o que a Pri escreveu:

26 de fevereiro (são 366 mensagens diárias "recebidas" pela escritora):

"Algumas vezes o novo se desdobra tão devagar que não é possível perceber as mudanças que estão acontecendo, até que, de repente, elas já aconteceram desapercebidamente. Outras vezes é possível ver as mudanças se desenrolando passo a passo bem à frente dos olhos. Há vezes, ainda, quando acontecem coisas de um dia para o outro - como no inverno, quando você vai dormir à noite e na manhã seguinte está tudo coberto de neve. Você não teve nada a ver com o que aconteceu; tudo se passou de uma maneira miraculosa. O novo será revelado de muitas maneiras diferentes. Tudo que você tem a fazer é caminhar com ele, sem resistência. Mudanças não são necessariamente dolorosas. São inevitáveis  porque nada pode permanecer imutável; e se você consultar seu coração, você mesmo não irá querer que ele permaneça o mesmo."

Está chegando o Natal

Hoje é o último dia do mês. E amanhã começa dezembro.




Fui convidada a participar de um meme pela Tania do Elos e Nós. Eu ainda não respondi mas pretendo fazê-lo. O meme me fez pensar sobre algo que é recorrente em minhas análises. As perguntas do meme são aparentemente simples, como listar 7 coisas boas que a gente tem de bom e 7 que a gente tem de ruim. Digo aparentemente simples porque falar sobre algo que é bom ou ruim na gente não me parece dicotômico. Não consigo pensar que as coisas que eu tenha de ruim sejam sempre ruins ou que as boas sejam sempre boas. Às vezes o que a gente mais odeia na gente é o que nos ajuda em muitos momentos. Eu acredito no equilíbrio, mesmo que saber o ponto do equilíbrio seja tão difícil.

Eu aproveitei o gancho do Natal para lançar de leve essa reflexão, sem muita elocubração. Eu gostaria de ser uma pessoa simples no pensamento, de achar as coisas boas sem analisar tanto. Eu gostaria de não estar sempre perguntando para que, como, quando, se é certo, se é errado. Eu gostaria de me conformar mais vezes. Mas ao mesmo tempo, eu reconheço que grande parte do meu valor está em que eu seja muitas vezes complexa. Perceberam como é difícil?

Bom, então vem o convite que eu aceitei da Beth do Noites em Claro. Que eu resolvi ligar a esta reflexão de Natal porque o tema natalino em si não me parece simples. Todo ano a cidade é enfeitada, tiramos dos armários as árvores de Natal e embora eu ache tudo lindo, fico me perguntando o que tem a ver os bonecos de neve com o calor infernal que está fazendo ou os biscoitos de gengibre que a gente nem come. Mas como em tantas outras vezes, eu procuro deixar de lado o preciosismo e aproveitar o momento. E pensar que ser bonito é suficiente. Nos encanta, nos traz magia e sonho.

Bom, os cartões vistos acima, como eu ia dizendo, fiz por um convite da Beth. São scrapcards, ou seja, cartões feitos a mão com material de scrapbook. Minha máquina resolveu me deixar na mão, por isso a terrível qualidade de imagem que saquei com a webcam. Que não é do meu feitio. Mas decidi postar asssim mesmo, pela alegria de compartilhar algo que eu fiz. Fotos em detalhe abaixo.



Não vou dar os créditos completos mas gostaria de comentar algumas coisas. A árvore ao lado está com alguma dimensão; usei fita banana para levantar. E o desenho foi feito com carimbo.



As letras do "Feliz Natal" foram cortadas na máquina Cuttlebug e depois eu apliquei tinta relevo com glitter por cima. Essa é uma técnica que eu gosto muito de utilizar.

A árvore foi design meu. Gosto de criar figuras com formas geométricas. Apliquei-a num "tapete" e levantei com fita banana.

Os quadrados contendo o gingerman e o floco de neve foram cortados na Cuttlebug e eu utilizei a fita banana para dar dimensão.

As tags também foram cortadas na Cuttlebug e amarrei fitas cetim para dar mais charme. O botão foi realmente costurado no papel com linha de bordar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Seria a realidade real?

Estava assistindo um desenho em 3D neste final de semana e num certo ponto, onde os personagens parecem flutuar no meio da galáxia, eu fui acometida por um sentimento de confusão entre o real e o imaginário. Eu me dei conta, em milésimos de segundos, que a cada dia que passa, o homem torna real dezenas de ideias, situações antes somente imaginadas. Já não foi dito que grande parte das invenções se baseia naquilo que foi escrito em romances ou contos de ficção científica? Não consigo detalhar a minha estupefação, descrever com as palavras certas, mas naquele momento fiquei me indagando sobre a realidade deste mundo: como pode ser real um mundo em que a maioria das coisas que nos cerca é inventada? Somos nós frutos de nossa própria imaginação e vontade?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O medo e o caminho

Eu já tive muito medo. Medo de muita coisa, em geral.

Me peguei hoje analisando que medos, ainda os tenho, porém muito menos. E que o que me fez ter menos medo foi a experiência. Parece óbvio, né? Nem tanto assim. Muita gente vive uma vida inteira com medo.

Me ocorreu nessa reflexão que de uma forma bem simplista, essa superação é como a dos caminhos desconhecidos. Sem metáforas nesse momento: caminhos de verdade. Como quando a gente pega um ônibus ou vai dirigindo por uma estrada, e por dentro aquele desconforto, sem saber o que vem pela frente. Ao final da jornada, chegando seguro ao destino, a gente se dá conta de que o desconforto foi embora. E ao atravessar novamente a mesma estrada, o medo pode vir bem de fininho ou nem vir mais. Por que a gente já sabe onde ela vai dar. E conhecida a estrada, se a viagem é agradável, a gente se sente motivado a ir por outras, a desbravar mais caminhos.

Importante é lembrar que os caminhos, se de nossa escolha, não precisam ser extenuantes. Violência pessoal causa trauma e não vitória. Percorrer os caminhos, do tamanho da nossa perna, onde a nossa coragem alcançar. E não desistir de percorrê-los. É assim que se vence o medo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Evolução

Eu escuto e profiro a frase constantemente "quero ser melhor, quero evoluir". Mas o que é a evolução de verdade?


Para mim a evolução implica em alguns fatores macro como ser mais generosa, estar mais contente com a vida, ser mais gentil comigo mesma, aprender sempre e mais. Minimizar o orgulho e o egoísmo. E daí derivam várias outras resoluções menores, mais aplicadas ao cotidiano, que eu creio serem necessárias para atingir os objetivos maiores.

Existe portanto um padrão pessoal dentro do conceito de evoluir. Como tudo na vida, é relativo. Então quem é severo demais consigo mesmo tenta ser mais indulgente. Quem é eloquente demais e expõe o desnecessário, procurar falar menos. Fica até temeroso às vezes a gente escrever sobre um determinado tema e atingir o público errado. Como no post anterior em que eu falo sobre pequenos sonhos, pequenas concessões. De repente a pessoa já está sofrendo com alcoolismo ou com a dificuldade em manter uma dieta alimentar e se sente autorizada a enfiar o pé na jaca, só porque se falou em pequenos prazeres diários.

Chego então no ponto mais difícil: como saber quando a gente realmente precisa mudar? O que precisamos exatamente mudar? Enxergamos nos outros coisas que eles precisam mudar mas não mudam. Coisas que não precisam ser diferentes mas em que o outro insiste em mudar. Tem os que pensam constantemente em mudar, para melhorar, e aqueles para os quais visivelmente as coisas não funcionam mas eles nem se preocupam, continuam agindo de forma autodestrutiva. E pior, será que o outro precisa mudar mesmo? Será que a mudança que a gente propõe é o que ele precisa ou a gente não está querendo de uma certa forma satisfazer um gosto ou uma regra pessoal?

Pouco podemos fazer fora de nosso contexto. Quando entendemos que mudanças são possíveis dentro de nós mas podem ser pouco factíveis nos outros se a outra parte não quer mudar, tiramos um peso do ombro. Vale o otimismo, vale continuar tentando altruisticamente, não podemos abandonar nosso papel de educadores (afinal com filho acho que a história é diferente pois existe a responsabilidade ímplicita ao papel), mas não podemos calcar as nossas maiores expectativas nas mudanças dos outros pois estamos fadados à decepção agindo assim. Existe até, me ocorreu agora, quem deixa de se perceber por buscar o tempo todo a mudança nos outros. Quer tanto corrigir o que está em volta que não conclui que a mudança necessária, na verdade, é em si próprio.

Então volto à pergunta: como saber o que mudar em nós? Ajuda a auto-observação. Analisar fatos e consequências e tentar mudar padrões. Mas tem um grande detalhe que descobri recentemente: mudar para o oposto do que a gente é ou querer fazer a mudança de forma radical não gera bons resultados. É como li no outro dia: a gente pode até se manter num estado de negar uma determinada característica, certo comportamento, mas isso não implica na mudança verdadeira. Torna-se repressão. E não é bom ficar reprimido pois em algum momento o caldo entorna. Não podemos nos violentar e decidir ser exatamente o oposto do que está na nossa essência. O tímido não precisa se tornar o mais popular do colégio, ninguém precisa falar com todo mundo, desde que quando a gente fale, que seja de valor, que seja generoso. Então podemos, por exemplo, agir de forma menos tímida dentro de nosso espectro. Dentro do que a gente alcança. Mudanças menores que nos dão fôlego para tentar outras e assim sucessivamente.

Quem disse que é fácil? Não é fácil para ninguém. Estamos todos em busca de algo. Com mais ou menos acertos. Estamos todos vivos e passíveis de escolhas. Não é fácil mas não é ruim. E não parece que o fácil, às vezes perde a graça?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Desapego



Quando a gente ouve falar em desapego, a gente pensa logo em desapego material. A gente lembra de Jesus Cristo em seus trajes modestos e em plácidos monges tibetanos que vivem isolados de tudo e de todos. E parece tão longe de nossa realidade, tão distante de nosso dia-a-dia.

Entendi recentemente que apego é um conceito muito mais amplo.

Ser desapegado implica em não gerar expectativas exageradas e sobretudo desnecessárias. Porque expectativa parece andar de mãos dadas com a decepção. Decepção porque se muitas vezes nem nós mesmo somos capazes de prever as consequências de nossos atos ou escolhas, imagina então quem vive ao nosso redor. Um desconhecido é capaz de entender que a gente queria andar naquela ponta da calçada? Uma amiga consegue prever que naquele modelo de blusa a gente acha que a cor não cai bem? Se a resposta dessas perguntas é não, para que então complicar, gerando em cima de situações simples mais e mais fatores de expectativa potencializando a nossa decepção? Criando no que poderia ser binário uma verdadeira múltipla escolha onde as respostas certas parecem nunca ser marcadas?

Claro que ser desapegado também implica em não valorizar tanto algo material. Por que o que é material deprecia, pode ser roubado ou destruído. Então a gente pode cuidar tendo a compreensão de que um dia aquilo pode ser tirado de nós por motivos alheios ao nosso controle. Pode ser mais fácil se a gente tiver por dentro coisas que não poderão ser tomadas: as nossas virtudes.

Dentro da amplitude do desapego, descobri que precisamos nos desapegar dos pensamentos, dos maus hábitos. A gente busca às vezes no mundo externo, em terceiros, as causas das nossas desgraças e não percebe que sem querer a gente é que está cultivando aquilo que nos incomoda. Sem notar, a gente trás de volta para dentro da cabeça o pensamento nocivo, ou mesmo aquelas coisinhas que a gente pensa, aparentemente sem importância, lembranças, análises, como nós gostamos de pensar, mas que na verdade são as nossas algemas, que nos mantêm presos no mesmo lugar.

"I will not harbor negative thoughts". Eu não vou abrigar pensamentos negativos.

Assim citou Elizabeth Gilbert em seu best-seller. Um grande passo é reconhecer que esses pensamentos existem e que eles não são saudáveis. É a prática do desapego. É mais fácil a gente voltar num pensamento antigo, mesmo ruim, do que substituí-lo por um novo. A gente tem medo de criar novas complicações. Então porque deixar ir? Deixa eu ficar aqui quietinha com o meu antigo pensamento. É o que a gente sente no fundo, sem se dar conta.

Se a mente insiste em não ajudar, mesmo a gente sabendo que não quer abrigar os tais pensamentos, então vale de tudo. Vale repetir a tal frase, do "Eu não vou abrigar pensamentos negativos". Vale rezar, vale cantarolar, vale correr, fazer abdominal, lavar a louça, ler um livro, ver um filme. Só não pode é deixar ele lá, como a mesma autora tão bem apontou: como um mantra de negatividade. Então basta a nós, se não somos capazes de esvaziar nossas mentes, substituir o mantra ruim por um mantra bom. Pode ser um inventado, não precisa ser complicado. Só precisa nos fazer bem.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Métrica

Estava lendo um artigo sobre criatividade voltada para negócios e me chamou a atenção a expressão "pressão por resultado". Pensei na sua aplicação. Eu já trabalhei sob essa pressão. Então a coisa funciona mais ou menos assim: a gente tem tópicos, chamados, problemas, como queira se chamar e somos pressionados várias vezes por dia a atualizar status e resultados sobre os temas. Paralelamente relatórios são enviados diariamente, às vezes mais de uma vez por dia, mostrando a partir de referências de tempo (horas, dias, semanas, meses) quantos assuntos foram resolvidos, há quanto tempo estão pendentes.

Existem vários tipos de pressão por resultado. Dentro de vendas, de finalização de projetos, de valores em geral. Quis citar esse tipo para dar uma ideia de como a pressão age no dia-a-dia do profissional. 24 por 7 (24 horas por dia, 7 dias da semana) como se diz na área.

Devo dizer que eu consegui desempenhar bem a tarefa. Mas é algo que a gente faz por um tempo e precisa de intervalos para recarregar as energias pois é algo extremamente "drenante", neurótico.

Lembro que me peguei várias vezes, depois que conheci este tipo de trabalho, imaginando como seria se na vida a gente também tivesse métricas. Bastaria a cada dúvida ou problema pessoal a gente listar prós e contras e a partir de uma escala determinar a importância dos problemas e mesmo decidir baseado na quantidade de fatores: "até X mentiras eu consigo manter a amizade. A partir daí, fim."

De uma forma, o pensamento lógico até nos auxilia a organizar a vida. Poderia ser mais fácil decidir assim. Mas tem questões em que a métrica não funciona. Tem coisas que não são mensuráveis, nem em quantidade, nem em volume e nem em nada. Não existe referência, não existe o certo ou o errado. Existe a nossa visão em relação ao acontecimento, a nossa verdade, que serve tão e somente a nós mesmos. Então a tentativa de sistema entra em colapso e não adianta tentar aplicar o raciocínio puro. Tem que pesar também com o coração.

Foi assim que eu cheguei à conclusão de que a "pressão por resultado" embora factível, é inversa ao que nos é saudável e aos valores que deveríamos estar aplicando em nossas vidas. Pois quem mais faz números não necessariamente é melhor ser humano. Não necessariamente é quem ajuda os colegas, quem se preocupa com o bem-estar da família e da comunidade. Não necessariamente é quem ouve e sabe escolher com o coração.

Bom, com relação ao artigo? O que ele diz é justamente isso. Que a "pressão por resultado" é um fator prejudicial à criatividade e às grandes ideias. Simples assim.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O dia difícil

Esse post é para a Labelle. Eu ia escrever um comentário mas me dei conta que ia ficar tão grande que acabaria se tornando um post.

Você me disse que está evitando filmes tristes. Só que eu vou ter que citar "Precious". A narrativa do filme é no formato de pensamentos da Precious, uma garota truculenta, de pouca fala, mas com uma mente que não pára de refletir sobre o que acontece com ela, dentro da simplicidade de seu vocabulário que ela, analfabeta, alcança. Então teve uma passagem que me tocou profundamente. Ela disse:

"The other day, I cried. But you know what? Fuck that day. That's why God, or whoever, makes other days".

Fiquei pensando que não só é uma benção que os dias acabem e novos dias comecem como, de uma forma meio bizarra, os dias ruins parecem existir para que a gente consiga reconhecer os bons dias, quando eles "aparecem". A mente humana é assim. A gente identifica com facilidade as coisas ruins mas parece ter dificuldade em lembrar ou se abrir para o que é bom. Deve ser por isso que existe tanta religião ensinando a gente a ser feliz.

Bom dia! ;-)

Quotes da Precious:

http://www.imdb.com/title/tt0929632/quotes

domingo, 8 de agosto de 2010

A metade vazia

Há ditados, citações, ensinamentos que valem para quase tudo na vida. Isso é bacana mas ao mesmo tempo nos dá uma sensação excessivamente genérica por vezes. É como aquela parábola do copo, se está metade cheio ou metade vazio. Todo mundo está careca de saber que é a postura diante da vida, se a pessoa se coloca de forma positiva ou se prefere destacar os aspectos negativos.

Existem momentos em que a gente precisa ser generalista e perceber o ensinamento do copo vazio ou cheio na sua totalidade. Em outros, somos acometidos por insights, constatações que apesar de óbvias, são verdadeiras revelações que nos fazem querer, nem que seja por segundos mudar certos hábitos. São aqueles segundos em que a gente se dá conta ou relembra que numa determinada situação, a gente continua enxergando o copo vazio, mesmo que na maioria das vezes a gente já esteja conseguindo enxergá-lo cheio.

Mentes ativas, curiosas. Um mundo de idéias, lugares, livros, filmes, teorias e práticas a conhecer e dominar. O copo, eu diria, está quase que o tempo todo de metade vazio para quase que totalmente vazio....

Se por um lado existe o benefício que é o de manter a sede de aprender, uma engrenagem que nos move para cima, por outro existem momentos em que a gente precisa entender que o copo, embora nunca vá se encher de verdade, está no nível bastante adequado. É um nível elástico, que precisa ser movido para cima ou para baixo. E sempre para cima no momento em que beiramos o exagero.

Numa escala de desenvolvimento, existem sempre os que estão acima e os que estão abaixo. A gente não precisa olhar nessas direções. A gente precisa é olhar para dentro e se satisfazer com o que já foi alcançado, sem perder nunca o horizonte de vista.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Gatilho

Estava lendo no outro dia um livro chamado "Deus usa batom" de Karen Berg. Esse livro fala sobre a Cabala com um enfoque para mulheres. Acredito que a espiritualidade, independentemente da linha adotada, é necessária na vida de todos. Eu sempre busquei a minha, lamento dizer que nunca no grau de maturidade e disciplina que eu gostaria de atingir. Mas saber que pelo menos eu penso no assunto, que pelo menos a consciência existe, isso me traz um mínimo de conforto. No outro dia uma amiga me escreveu: "não se martirize". E é este um dos grande ensinamentos que eu preciso aprender e interiorizar. Martirizar-se não soluciona nada.

Voltando ao livro, existem muitos ensinamentos bacanas e que considero lógicos. Práticas que eu já entendi há muito tempo atrás serem necessárias. Leio esses livros, me identifico, mas no fundo vem uma frustração (olha eu me martirizando de novo). Eu não me conformo com a distância que existe entre aquilo que a gente considera bom e que a gente gostaria de aplicar de forma consistente na vida com o que a gente realmente consegue por em prática. Creio que um dos grandes mistérios da vida está em encontrar a chave da reprogramação de nossos pensamentos e ações. Por mais que a gente saiba que determinada atitude não faz bem (vou me isentar aqui da classificação de certo ou errado), isso infelizmente não previne a atitude em si. A gente não gosta, sabe que o resultado não vai ser bom mas continua fazendo do mesmo jeito.

Sabe o que me frustra mais? Tem coisas que a gente faz por inconsciência. Digamos assim, que até tem uma certa desculpa. E aquilo que a gente tem consciência a respeito mas não consegue controlar? Talvez o controle seja o pior de tudo. Sempre digo que a situação ideal é quando algo se torna um hábito bom. Você não precisa se forçar àquilo. Você simplesmente faz. Aquilo já se tornou parte de você. O controle, especialmente em pessoas explosivas, parece ter o efeito contrário ao desejado. Me parece que o controle leva em algum ponto ao descontrole. Vem um gatilho e "buuummmm", lá se foi pelos ares o controle. E pior, parece que com mais força do que se não tivesse ocorrido uma tentativa de evitar.

Gatilho. Sim, percebi que existem gatilhos. Frases, repetições externas. Coisas que nos incomodam e que a gente não tem como mudar. Não dá para fugir, não dá para calar. Não dá para evitar. E a gente tem que aprender de alguma forma (que forma será essa?) a aceitar. Aquilo que nos incomoda, não necessariamente está errado. Às vezes não dá nem para mensurar ou classificar. Simplesmente incomoda.  E ninguém, aí que está o mais difícil de tudo, a não ser nós mesmos, vai conseguir solucionar. "Para toda ação existe uma reação". Eu gostaria sinceramente que a reação não fosse eternamente a mesma disparada pela ação. E que a intensidade, como na equação física, fosse na medida do possível, proporcional.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Por que é assim?

Pode me chamar de chata. Eu sou o tipo de pessoa que lava a louça se perguntando se é água demais. Que fica tentando imaginar o que vai acontecer com todas aquelas embalagens jogadas fora. Que pede licença quando vai passar na frente de alguém que olha a prateleira no supermercado e que devolve o carrinho para o lugar ao final das compras. Eu agradeço quando alguém me abre a porta e dou bom dia. Com o tempo fui adquirindo mais algumas manias. Tento não fazer fofoca, não julgar e não comer doces. Eu detesto que façam mal aos animais, não gosto de gente que só reclama e abomino falta de educação no trânsito. Ah, esqueci! Eu dou passagem e respeito o farol vermelho. E as faixas. E o limite de velocidade. Eu não pego dinheiro no chão da rua. Para mim, achado não é roubado mas também não é meu. É de alguém que pode voltar para buscar.

Poderia dizer que estas são coisas "pequenas" que me preocupam. Muitas regras que eu inventei para mim, formas de respeitar e viver  bem. Ser uma pessoa educada, agradável e que sabe viver em comunidade. Tão chata eu sou.

Não é de admirar então que cada vez mais eu veja um abismo se formar entre mim e a realidade. Existem coisas que não deixam de me surpreender negativamente. Cada vez mais e a cada dia mais. Quanto menos eu minto, cada desculpa esfarrapada que deixo de dar aumenta a minha estupefação diante das mentiras deslavadas e desnecessárias. Certos conceitos como não roubar e não matar, são coisas inquestionáveis, práticas naturais desde que me entendo por gente, então é inacreditável dentro do meu universo que possam existir pessoas capazes de praticá-las e pior, por motivos fúteis. Lógico que não sou míope, não sou alienada e consigo entender o pano de fundo do problema social, da infância desprovida, da violência doméstica. Vejo as atrocidades nas notícias e no cotidiano, longe ou perto de mim e antes costumava me perguntar: por que tem que ser assim? Por que eles precisaram fazer isso? Sim, eu vivia me perguntando.

Com o tempo cansei de que querer saber o por quê. Cansei ou concluí ser inútil. O por que, se a gente sabe, não resolve. No mínimo previne, se for possível. Não me interessa mais saber por que é assim. Eu só gostaria que não fosse assim.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Imortalidade

Eu sou da época em que vampiro era o Lestat. Dilemas quanto à imortalidade, ô pessoalzinho angustiado, esses vampiros da Anne Rice, a constatação da monstruosidade indesejada mas inevitável e outras questões que já não recordo mais. Em algum ponto da trilogia eu abandonei as estórias pois a sanguinolência acabou me enjoando. Em algum ponto comecei a achar tudo aquilo mórbido demais.

Crepúsculo, que estou lendo agora, tem várias questões em comum com às do vampiro Lestat, embora de forma infinitamente, eu diria que até excessivamente, mais adocicada. Pelo menos até o ponto do livro onde eu cheguei.

Duas coisas me fascinam. A primeira, nos escritores de ficção em geral, quando os personagens não são humanos, em como eles conseguem transcender o mundo real e abordar aspectos psicológicos, conflitos gerados a partir de características não-humanas. Não bastasse o ser humano ser complicado o suficiente, o escritor tem a capacidade de criar em seu personagem um debate interno, tal qual os humanos travam com suas próprias consciências, entretanto tendo por pano de fundo o fantástico. Vale a pena então citar novamente as reflexões que a "Morte" faz consigo mesma na "Menina que roubava livros". Genial.

Em segundo lugar vem a Imortalidade. Creio que o mais frequente seja sonhar que seja possível manter-nos jovens para sempre, desfrutando dos prazeres da vida proporcionados por poderes sobrenaturais. Então a gente se depara com personagens em certo ponto da jornada entediados, cansados de viverem para sempre. Lembra do Highlander? Além do cansaço, a tristeza de ver os humanos queridos indo, o medo de amar e de perder, que é inevitável nesse contexto.

A cada dia que passa eu me fixo muito menos nos motivos pelos quais as coisas acontecem e mais no que pode ser feito ou o que podemos ganhar com determinadas situações. A gente tende a achar que em algum ponto a velhice vai nos afetar e que a gente vai se deprimir, sem alternativas, tomados pela incapacidade de fazer aquilo que gostamos. Um grande equívoco. Quantas pessoas jovens vemos diariamente que desperdiçam sua juventude em atitudes totalmente improdutivas? Pessoas que acordam, vão para o trabalho, fofocam um pouco, comentam superficialmente as últimas notícias, voltam para casa para ver o futebol ou a novela, e passam pela vida sem nenhum interesse em especial, sem abrir um único livro. Diante deste quadro, não estariam elas já quase mortas, sem nem terem que esperar a velhice?

Eu não sei se eu me cansaria da imortalidade. Pode ser que sim. Mas fico realmente tentando imaginar se na imortalidade eu encontraria algum alento para a angústia e a frustração que às vezes me invadem por não dar conta de tudo o que eu quero conhecer e dominar. Se assim eu me daria o prazer de saborear as coisas devagar, sem a pressa que a vida moderna nos impõe. Tempo para executar todos os projetos imaginados e que demandam dedicação, que muitas vezes se perde no cotidiano, nos afazeres comuns e diários, por sua vez não menos importantes. O prazer de desfrutar o simples e o grandioso. Sem pressa e consequentemente sem cobrança.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quarto arrumado


Quando eu tinha entre 5 e 6 anos de idade, eu adorava assistir o seriado "Feiticeira". Me fascinava não somente os poderes mágicos da protagonista mas também o estilo de vida em si: casa ampla com gramado na frente, belos penteados, roupas elegantes, o cenário "família feliz" a despeito de todas as trapalhadas que a terrível Endora ou a irmã morena provocavam. No final tudo se resolvia e acabava com o casal feliz se beijando.

Não era raro que eu olhasse a bagunça à minha volta, que eu mesma havia provocado após uma série de brincadeiras e pensasse: "seria tão bom se eu tivesse poderes mágicos para colocar tudinho de volta no lugar!". Então, lá ia eu tentar imitar o movimento de nariz que a "Feiticeira" fazia ou fechar os olhos para desejar que ao abri-los, eu pudesse encontrar tudo arrumadinho de novo. E obviamente, para minha profunda decepção, não encontrava. Mas isso não impedia que eu de novo, tentasse a mágica num outro dia.

Eu não sei porque mas desorganização, tumulto visual, excesso de cor e de informação, despadronização, essas são coisas extremamente perturbadoras para mim. Desde criança. Isso não quer dizer que eu consiga manter tudo arrumado o tempo todo mas arrumar, desfazer-me do desnecessário, são atitudes que me devolvem o equilíbrio e a paz interior.

Tem dias que eu visualizo a minha mente assim: como um quarto. Às vezes ele está ensolarado e arrumado, com um sol gostoso entrando pela janela. Em outros dias ele me parece sombrio, empoeirado como a passagem para a cabeça do John Malkovich, naquele filme "Quero ser John Malkovich".

O que há de comum entre mim e aquele menina de 5 anos é que eu ainda tento colocar tudo de volta nos lugares certos. Cada coisinha, cada pensamento na sua caixinha certa. A diferença é que hoje eu não acredito mais em fórmula mágica. Eu não tento mais fechar os meus olhos e esperar que tudo esteja bem ao abri-los. Doa ou não, eu tento fazer o certo, colocando eu mesma tudo de volta no lugar.


sexta-feira, 30 de abril de 2010

Vida simples

Estava olhando o site que eu mencionei no post passado, da revista "Vida simples" e me perdi neste paradoxo. Fiquei tentando compreender porque é complexo viver de forma simples. Se é simples, não deveria ser simples?


Fazer o bem

A revista Vida Simples do mês passado abordou o tema que não sei se seria exatamente: "Você é do bem?". Era algo do tipo. Mas o que importa é que foram discutidos vários aspectos sobre fazer o bem principalmente no contexto social (caridade, etc).

Um ponto que me interessou muito foi quando a reportagem dizia que para fazer o bem, é necessário respeitar a vontade do objeto da benfeitoria. Me lembrou a "caída de ficha" da Sandra Bullock no excelente "Um sonho possível".

Mas certamente isto não me chamou a atenção por causa da correlação com o filme. A identificação sem sombra de dúvida surgiu pelo fato de que eu já me vi vítima de supostas ajudas não requisitadas e que incomodaram, nas quais se seguiram aquele debate, de um lado a pessoa incomodada e do outro a outra magoada porque "só queria ajudar". Ou agradar. Tanto faz.

Aí chega o dia, ou os dias, em que a gente passa de "beneficiado incomodado" a "benfeitor magoado". "Puxa, ela não pediu mas eu sei que ela gosta e fiz para agradar!"

Como é difícil o limite, não? Saber até onde a gente faz realmente para agradar a outra pessoa ou se é para agradar a si próprio, inconscientemente desejando algum tipo de reconhecimento, alimento para a carência íntima.

De um lado, o entusiasmo exacerbado. Do outro, o desânimo, o medo de desagradar. Não deixo, como sempre, de dizer que a solução é o equilíbrio. Mas como atingi-lo? Até onde as ações caracterizam companheirismo, cuidado, relação sadia ou dependência emocional?

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sobre ser no passado e no presente: em mutação

Estava lendo a última edição da revista Galileu, em especial a reportagem que fala sobre o "Lado bom da depressão". O link adicionado não demonstra a reportagem na íntegra mas eu me lembro de um depoimento em que o rapaz diz que a depressão o levou a se conhecer melhor e a se perdoar mais.

Não tenho conhecimento suficiente para afirmar se a depressão pode ter um lado bom, ou se a depressão de verdade sempre exige ajuda médica e aquela em que a pessoa consegue de alguma forma contornar não poderia ser caracterizada como depressão propriamente dita mas sim, como uma tristeza profunda, paralisante. De qualquer forma, eu acredito sim, que o sofrimento profundo possa ser um detonador de mudanças e em muitas vezes boa.

Estava pensando sobre mudanças, auto-conhecimento, o verdadeiro "eu", bullying, adolescência, todas essas coisas ao mesmo tempo. Na verdade, acho que é muito difícil separar o que a gente é, do que a gente quer ser e do que esperam que a gente seja. Há momentos em que tudo isso se mistura e o que os outros esperam que a gente seja, se torna demasiadamente forte e prolongado. O que é pior até do que tentar ser o que a gente não é. Tentando ser o que a gente não é, a gente no fundo está tentando satisfazer um desejo íntimo. Tentar ser o que os outros querem não tem nada de íntimo, embora sirva como aprendizado.

Então fiquei aqui refletindo sobre isso tudo e meu deu um calorzinho por dentro. Um reconhecimento de que por mais difíceis que sejam as transições e as mudanças, que existe algo muito enternecedor em olhar para nós mesmos agora, comparar com o passado presente e com o passado distante e ter aquela sensação de: "ei, eu estou te reconhecendo novamente. Estes são os seus sonhos, mesmo que relidos". Algo reconfortante em perceber que felizmente, chega uma hora na vida de alguns em que a gente não precisa sequer tentar ser quem a gente não é, quem dirá ser alguém que os outros querem que a gente seja. E o mais surpreendente: perceber que não só existem pessoas que são como a gente é, como são com que a gente gosta de estar e o mais importante: que gostam de como a gente é.

sexta-feira, 26 de março de 2010

O ser social e o ser pessoal


O maior problema nos relacionamentos é a constatação e a aceitação do que somos intimamente versus o que somos dentro da relação.

O ser humano apesar de um ser social, e eu ia utilizar neste momento a palavra "postulado" mas talvez "axioma" se aplique melhor, parece nascer centrado nele mesmo. Não nascemos sabendo conviver e atuar com as boas práticas do convívio social. Nascemos pensando em nós mesmos, no que queremos da vida, no que somos e em como o "mundo" precisa ser para interagir com o nosso pequeno universo.

Aí é aquela velha história do jovem que leva vida dupla. Em casa ele é certinho e não fala palavrão e no colégio ele se solta com os amigos. Está errado isso? Creio que não. Intimamente ele pode ter qualidades como o respeito aos pais, a vontade de se acertar na relação familiar mas no fundo ele necessita ser mais livre, expressar-se de uma forma mais ousada que não necessariamente implica em agir de uma forma agressiva. Seria o que eu quero dizer com o ser social, o que o jovem é perante os pais, respeitando as regras que aquela relação impõe e o que ele realmente quer ser socialmente e que transparece com os amigos, mesmo que permeado por outras regras que aquele grupo acaba impondo também.

No outro dia eu li na Caras (sim, eu pratico a leitura diversificada...) que a modelo Raica declarava que detesta homem romântico. Quanto mais meloso, mais ela quer distância deles. Então eu pensei: "ora, então ela tem que evitar mesmo". Porque quando existimos numa relação, e aí não precisa ser somente amorosa, pode ser qualquer relação, reprimindo o "ser pessoal", isso se transforma numa bomba relógio ou no pivô de conflitos intermináveis. Quer prova mais espontânea do ser íntimo do que a forma como uma pessoa deseja demonstrar o afeto pela outra?

E é então que eu chego no cerne desta minha reflexão: que muitas vezes nos magoamos ou os outros se irritam conosco por coisas que são vistas como propositais: "você fez isso que eu não gosto". Quando na verdade, a pessoa está "sendo". É assim que ela é, na relação familiar, afetiva, de trabalho. E ela não precisa mudar aquele aspecto se não a incomoda. E ela não vai mudar porque é algo enraizado, que define sua personalidade, que mesmo que a incomode, pode levar tempo se ela tentar mudar. E aí entra outra coisa que parece existir dentro das relações: a fixação de um perfil geral que montamos dentro da nossa cabeça. Congelamos uma imagem de como a pessoa é, e somos incapazes de enxergar as mudanças que o outro procura promover em si mesmo em prol da relação. Qualquer deslize, qualquer ato que remotamente lembre a forma de agir anterior joga por terra abaixo todo o trabalho que vinha sendo feito.

É por isso que se ouve tão frequentemente a frase: "quero alguém que goste de mim como eu sou". É a desistência, o cansaço de tentar mudar e não ser reconhecido falando alto. E é por isso que a gente não pode gerar expectativas. A gente não pode ficar esperando uma determinada atitude de outra pessoa diferente de como ela costuma agir porque a expectativa pode estar sendo baseada em algo distante do que o outro realmente é.

Viver relações sem cobranças e sem expectativas não é fácil. Por último, e como sempre, vou dizer que a maior parte das coisas sobre as quais eu reflito aqui, para as quais eu procuro dar uma solução, parecem lógicas mas são rapidamente boicotadas pelo sentimento e principalmente pelo egocentrismo. Não é porque a gente acha que deve ser feito que a gente consiga fazer. Mas gosto de pensar que são exercícios. E que um dia a gente vai passar na prova, nem que seja na média.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Uma nova perspectiva


Há coisas que me parecem óbvias mas que não deixam de se tornar cada vez mais óbvias conforme o tempo vai passando e eu as vou praticando. Com relação a ler, a se informar. Eu não canso de me surpreender com as diversas facetas e visões que vou adquirindo através da leitura ao longo dos tempos. Bom, isso também acontece com bons filmes.

Estou lendo "A menina que roubava livros" de Markus Zusak. Eu diria que o aspecto destacado por este meu post nem é o que mais surpreende no livro. O bacana do livro é a estrutura em si, a disposição inusitada dos parágrafos e principalmente a personificação da morte, a poesia com que ela nos fala dos momentos em que as vidas são levadas por ela e até os questionamentos que ela se faz sobre o seu "trabalho". Genial.

Voltando ao assunto principal, a imagem que ficou marcada de um modo geral foi a do judeu subjugado pelo Nazismo e pelos horrores do Holocausto. Não tenho dúvidas de que foi de um sofrimento inimaginável. O que me incomoda nessa história a partir do momento em que começamos a conhecer outros relatos como o que o livro expõe tão bem, mesmo em forma de ficção, é a unilateralidade. Sim, porque o povo alemão ficou como um todo com a fama de mau. Só que com menos frequência ouvimos falar daqueles que mesmo sendo alemães não compactuavam com o regime e que se em determinados momentos agiam de acordo, era por pura coação, por medo. Poucos conhecem o martírio daqueles que viam seus filhos sendo levados para batalhas impossíveis de serem vencidas, das crianças que já na escola sofriam os rigores e a lavagem cerebral, da fome, do medo dos bombardeios, das mortes e da destruição que enfrentavam nas cidades alvo.

O filme "A Lista de Schindler" hollywoodianamente mostra o esforço de um militar de alto escalão na luta para salvar judeus dos campos de concentração. Na época em que foi lançado lembro-me que revolucionou a forma de ver o Nazismo pois pela primeira vez um militar alemão em pleno período de guerra foi retratado fora do papel de mau. E por americanos.

Uma das belezas da maturidade bem informada é que com o tempo vamos ficando cada vez mais "em cima do muro". O que quero dizer com isto não é que nos abstemos da opinião. Não estou falando sobre omissão. Seria uma posição central mais justa, que pesa a maioria dos aspectos e das oposições, que avalia melhor e julga menos.